Curta feito por Fábio Rogério, que conta um pouco de uma época bem peculiar do cinema brasileiro, no fim dos anos 70, onde a população amava ir ao cinema assistir chanchadas brasileiras por seu conteúdo sexual, mas também odiavam o cinema brasileiro e seus atores no discurso. Uma época peculiar que representa toda a nossa história cinematográfica.
Esse é o tipo de curta que a gente gostaria que fosse longa. Se Habitar o Tempo (2025) fez com que quinze minutos parecessem eternos, Um Certo Cinema Brasileiro (2026) fez sete minutos parecerem sete segundos, e me fazer pedir mais. Mais minutos, que se torne horas e mais horas de um conteúdo fantástico sobre nosso próprio cinema.
O conteúdo é muito gostoso. A maioria dele é uma reportagem com pessoas em filas de cinema para assistirem ao filme A Dama do Lotação, que é um drama erótico brasileiro (o famoso Pornochanchada) estrelado por Sônia Braga, baseado num conto homônimo de Nelson Rodrigues. O filme é, até hoje, a sétima maior bilheteria da história do cinema brasileiro, foi um sucesso absoluto. E as respostas das pessoas entrevistadas são sensacionais. O consenso é que não gostam de cinema brasileiro, que os filmes não tem roteiro, conteúdo, mas que vão assistir ao filme pelo sexo e por Sônia Braga.
E aí temos infindáveis discussões sobre o cinema brasileiro, que persistem até hoje. Por que o brasileiro acha que não gosta do cinema brasileiro sendo que, com as condições corretas, ele enche as salas? Por que ele diz que nossos filmes não tem conteúdo sendo que são atraídos para ver pornochanchadas? Por que pedem por filmes de grande conteúdo sendo que o filmes de outros países que fazem sucesso aqui tem ainda menos conteúdo? Por que quase ninguém ainda entendeu como fazer filmes brasileiros de sucesso? E aí temos diversas respostas que certamente estão sendo redigidas em inúmeros “papers” ou projetos de mestrado e doutorado que ninguém irá ler.
Adoro que o filme só mostra isso tudo, de uma maneira super gostosa e bagunçada, que representa perfeitamente nosso cinema, em sua essência. Queria mais segundos, minutos e horas de Um Certo Cinema Brasileiro (2026).
Michael Renzetti é o criador do Perigoso Divino Maravilhoso. Um pseudo-escritor e comentarista do cinema brasileiro, com formação crítica construída em cursos realizados na Escola Livre de Cinema, Cinética, CineCuti, entre outros, onde aprofundou seus estudos em teoria, análise fílmica e pensamento cinematográfico. Penetra em importantes festivais do país — como o CineBH, a Mostra de Tiradentes, a CineOP e o Olhar de Cinema — desenvolveu um olhar atento ao audiovisual nacional, articulando repertório acadêmico e vivência de circuito.

