Crítica: Jubiabá

Crítica: Jubiabá

Resumo

Jubiabá é um filme de Nelson Pereira dos Santos, baseado no livro de Jorge Amado, que acompanha a vida de Baldo (Antônio Balduíno), de sua infância até a vida adulta na Bahia dos anos 1930 e, principalmente, sua relação com Lindinalda, a filha do comendador que havia lhe trazido para a casa após a morte da tia.

Jubiabá

Já disse aqui que estou lendo todos os livros de Jorge Amado na ordem, né? Pois bem. Havia acabado de acabar de ler Jubiabá, e aberto o Mar Morto, e pensei “quais serão todos os filmes baseados nas obras de Jorge Amado? Será que estou chegando perto de algum outro?”. Pois sei que Capitães da Areia tem uma adaptação americana (??!!?) de 1971 chamada The Sandpit Generals ou The Defient (que você pode assistir gratuitamente aqui e que já já terá crítica aqui. Aliás, esse filme quase se perdeu, e foi salvo pelos soviéticos nessa incrível história aqui. Tem também uma versão brasileira de 2011, que também terá crítica aqui. E Capitães da Areia é o próximo livro da minha lista. Então tá chegando. Ah, caso você não saiba, já tem uma crítica de Gabriela aqui (mesmo sem ter lido o livro ainda). 

Bem, para minha surpresa, apareceu simplesmente “Jubiabá 1986” como parte das respostas à pergunta “filmes baseados nos livros de jorge amado” que fiz ao Google. E não pude deixar de assistir. Inclusive, para você que procura, tem o filme para assistir gratuitamente tanto no YouTube aqui quanto no streaming Itaú Cultural Play aqui. Coisa boa. 

Para minha surpresa, e, ao mesmo tempo, não surpresa – pois, na verdade, faz todo sentido – Jubiabá não apenas existe como é filmado pelo GOAT Nelson Pereira dos Santos. 

Nelson Pereira dos Santos e Jorge Amado
Cool people hanging out together

No vídeo do YouTube tem aspas fortíssimas de nosso GOAT sobre Jorge Amado. Fui procurar e realmente elas procedem, dessa entrevista aqui da Cult. Vou reproduzi-las.

Jorge Amado sempre esteve em minha cabeça. Meu primeiro filme, Rio 40 Graus, tem o roteiro assinado por mim, mas, ao ver o filme, sente-se a presença e a influência fortíssima de Capitães da Areia, principalmente, ou até mesmo do próprio Jubiabá. A única coisa é que os heróis do Jorge, naquele tempo, tinham o happy end quando entravam no Partido Comunista e, no meu caso, continuam sendo cidadãos da favela, sem essa determinação política que fazia o fecho do personagem, que nos anos 1930 era uma coisa audaciosa, bonita e promissora. De qualquer forma, a presença de Jorge Amado em Rio 40 Graus é evidente. Os meus heróis são os meninos, com seu lado “capitães da areia”, que saem da favela e vão vender amendoim, no Rio de Janeiro, em um domingo, no verão… Cada um vai para um lugar, onde há turistas, futebol…

É isto. Nelson Pereira dos Santos e Jorge Amado, cada um em sua arte, queriam falar coisas muito parecidas, construir ideias de brasilidade, do povo real, muito do que já comentei aqui em 3 Obás de Xangô. E nada mais justo do que um filmar as obras do outro. Casamento perfeito. 

Eterna luta Filme x Livro em Jubiabá também

Mas devo dizer que filmar Jorge Amado é um processo ingrato. Mais do que o esperado em uma adaptação. 

Normalmente, os filmes adaptados são conhecidos por deixar de fora muita coisa, não conseguir cobrir em uma hora e meia, duas horas, tudo que é facilmente descrito em páginas e mais páginas de um livro. Adaptações já são difíceis pelos limites de tempo e dinheiro. 

Mas com Jorge Amado sinto que é ainda mais complicado. As obras do escritor tem detalhes demais, coisas muito pequenas, que certamente vão ser cortadas de um filme por não caberem na linguagem cinematográfica e por não serem motores de ação, mas que no livro funcionam de forma absurda pra criar o imaginário de um personagem. Como colocar isso num filme? 

***

Apesar dos seus oito anos, Antônio Balduíno já chefiava as quadrilhas de molecotes que vagabundeavam pelo morro do Capa-negro e morros adjacentes. Porém de noite não havia brinquedo que o arrancasse da contemplação das luzes que se acendiam na cidade tão próxima e tão longínqua. Se sentava naquele mesmo barranco à hora do crepúsculo e esperava com ansiedade de amante que as luzes se acendessem. tinha uma volúpia aquela espera, parecia um homem esperando a fêmea. Antônio Balduíno ficava com os olhos espichados em direção à cidade, esperando. Seu coração batia com mais força enquanto a escuridão da noite invadia o casario, cobria as ruas, a ladeira, e fazia subir da cidade um rumor estranho de gente que se recolhe ao lar, de homens que comentam os negócios do dia e o crime da noite passada. Antônio Balduíno, que só fora à cidade umas poucas vezes, assim mesmo às pressas, sempre arrastado pela tia, sentia àquela hora toda a vida da cidade. Vinha um rumor lá de baixo. ele ficava ouvindo os sons confusos, aquela onda de ruídos que subia pelas ladeiras escorregadias do morro. Sentia nos nervos a vibração de todos aqueles ruídos, aqueles sons de vida e de luta. Ficava se imaginando homem-feito, vivendo na vida apressada dos homens, lutando a luta de cada dia. Seus olhinhos miúdos brilhavam e por mais de uma vez ele sentiu vontade de se largar pelas ladeiras e ir ver de perto o espetáculo da cidade àquelas horas cinzentas. Bem sabia que perderia o jantar e que a surra o aguardaria na volta. Mas não era isso que o impedia de ir ver de perto o barulho da cidade que se recolhia do trabalho. O que ele não queria perder era o acender das luzes, revelação que era para ele sempre nova e bela. eis que a cidade já se envolve quase completamente nas trevas. Antônio Balduíno não enxerga mais nada. Vinha um vento frio com a escuridão. ele nem o sentia. Gozava voluptuosamente os ruídos, o barulho que aumentava cada vez mais. não perdia um só. distinguia as risadas, os gritos, as vozes dos bêbedos, as conversas sobre política, a voz arrastada dos cegos pedindo uma esmola pelo amor de deus, o barulho dos bondes carregados de pingentes. Gozava devagarinho a vida da cidade. 

***

Aqui, nos primeiros parágrafos do segundo capítulo do livro, Jorge Amado cria uma subjetividade absurda em Antônio Balduíno que nenhum filme vai conseguir fazer. É um menino curioso, diferente, sensível, que ama o povo, os sons, a bagunça, a confusão. E isso não tem no filme. 

Várias coisas não existem no filme. Baldo não tem essa personalidade, Gordo, outro personagem super complexo e importantíssimo, é deixado de lado e só aparece como uma homenagem, e o mesmo pode ser dito para tantos outros. E é claro que Nelson Pereira dos Santos (e o próprio Jorge Amado, que ajudou na construção do roteiro) sabem disso. Eles são muito mais inteligentes e competentes que eu. Se eu notei isso, logicamente, eles também já tinham essa noção. São escolhas que precisam ser feitas.

Então, ao invés d’eu ficar aqui apontando pra vocês todas as diferenças entre livro e filme, como:

  • A tia de Baldo aparece uma vez só e não tem a complexidade e ternura do livro
  • Não inicia com a luta de boxe que Baldo vence o “homem branco”, com todo seu belíssimo simbolismo
  • Jubiabá aparece menos que necessário e não tem a força que o livro dá ao personagem
  • O mar, tão importante para essa e as próximas obras, é deixado completamente de lado – não tem as histórias, os amigos, os suicídios, nada de mar

Eu quero focar em como é lindo esse filme existir.

Jubiabá é um belo filme

Um filme de uma hora e quarenta adaptado de um romance incrível de Jorge Amado, completamente focado na vida de um jovem negro que passeia pela vida difícil no morro com a tia, o candomblé e a cultura afro-baiana na Salvador, a vida complicada na casa de brancos ricos com lados positivos e negativos, sua fuga e a vida na rua  junto com outras crianças, seu crescimento, o boxe, o trabalho duro nas plantações de cana, o circo, o trabalho de estivador e a greve. É uma epopéia. Um lindo desenho de vida de um personagem incrível. Só por isso já vale muito. 

E ainda tem grande elenco, como Grande Otelo, Zezé Motta, Betty Faria… E pra complementar, trilha sonora de Gilberto Gil, com música tema para Antônio Balduíno. E pra Lindinalva. Não faz sentido pedir por todos os detalhes perfeitos do livro. Acho que disse a mesma coisa sobre Gabriela. Nós precisamos apenas celebrar que tal obra tenha sido feita, mesmo com todos seus defeitos.

E aqui parece que estou falando de um filme ruim, tentando criar desculpas. Mas não é o caso. Jubiabá é consistente, consegue passar ideias centrais da obra de Jorge Amado e ainda tem algumas cenas ou modos de filmagens fantásticas. O jeito que Nelson Pereira dos Santos consegue representar em momentos diferentes Baldo e Lindinalva pensando “um no outro” como eternos únicos amantes sem terem se amado é excelente. Consegue passar até melhor do que no livro.

Jubiabá por Nelson Pereira dos Santos

Estava lendo um estudo sobre o filme (que você também pode ler aqui) que discute muito mais profundamente essa questão de adaptação, filme, livro, etc… e vi duas aspas interessantes do diretor. 

No livro ‘Nelson Pereira dos Santos, O Sonho Possível do Cinema Brasileiro”:

No início da década de 50, dera-se num contexto político cultural muito diferente éramos marginais, naquela época, e nem se quer encontrávamos ambiente para tentar provar que o cinema deveria ir ao encontro da nossa  cultura […]. Agora nossa fase de afirmação foi superada. Podemos concorrer diante da nossa elite com os grandes realizadores internacionais. Há, portanto, no momento, uma nova tarefa a cumprir, mais ambiciosa do que a anterior: a de dialogar com o grande público; fazer um cinema que possa ser aceito, amado, por 320 milhões de espectadores/ano[…]. Se alcançarmos êxito nessa missão, nos próximos anos creio que teremos fundado, em definitivo, as bases do cinema brasileiro. (SALEM apud SANTOS 1996, p. 217-218).

No lançamento do filme na França:

Jubiabá é fundamentalmente uma história de amor. Através dela quis abordar o problema racial brasileiro, principalmente do negro, do exescravo. A ideia do filme é contribuir nesse sentido, retomar essa questão da maneira mais simples possível […]. (PAPA, 2005, p.152).

Dá pra ver que a ideia dele parecia ser de construir um filme mais palatável, focado no romance, para o grande público. E que a estética neorrealista já estava superada. A ideia era fazer mesmo um filme de sucesso, para todos, mas que não deixasse de contribuir com as questões importantes que foram levantadas por Jorge Amado no livro. 

E pra finalizar:

De certa forma, eu já tinha feito o Jubiabá no Rio, 40 graus. […] Tem muito de Jubiabá no Rio, 40 graus”. Como tinha de Tenda dos Milagres em O amuleto de Ogum. Só que agora não há a preocupação de pensar na mensagem […] Nelson não tergiversa: “ É uma história de amor mesmo”. Dessa vez, Jorge Amado não participou da adaptação nem das filmagens. Mas o roteiro foi no fundamental seguido, meio aos improvisos com as elipses com Baldo adolescente e adulto. No decorre das filmagens, Nelson constatou que Luís Santana (o Baldo adolescente) rendia muito bem comoator, e quis aproveitá-lo mais: então inventou as elipses dos dois Baldos, o adulto virando adolescente nos momentos de raiva, de rebeldia. A história ganhou mais força e beleza. A fotografia esplêndida de José Medeiros despojada, sem rebuscamento, muito claro e escuro”, como o próprio JM define. Já segundo Nelson, “quem gosta de pintura deve lembrar de Pancetti, Di Cavalcanti”. E o filme transmite mesmo um imenso prazer pela beleza, a liberdade poética, o cinema pelo cinema. Nem o discurso de Baldo ou as palavras de Jubiabá no fim tem qualquer efeito professoral. (SALEM, 1996, p. 376-377).

É isso. Vamos assistir Jubiabá. Vamos ler Jubiabá. Vamos aproveitar Jubiabá.

Links interessantes:

Assista ao filme gratuitamente no YouTube

Assista ao filme gratuitamente no Itaú Cultural Play

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Leia o estudo sobre Jubiabá


Comentários

Uma resposta para “Crítica: Jubiabá”

  1. […] sendo feita por ninguém mais ninguém menos que Gilberto Gil, que havia feito também a de Jubiabá. Olhem só, duas trilhas consecutivas de nosso grande artista nos filmes que acompanhamos por […]