Resumo:
Di Cavalcanti ou Di Glauber é um curta-documentário-homenagem póstuma a Di Cavalcanti. Feito exatamente na hora de sua morte, com filmagens de seu enterro. E uma leitura de uma reportagem sobre a polêmica que a filmagem causou com familiares de Di Cavalcanti. É o máximo possível de Glauber Rocha. Incrível. Lindo. Uma bela homenagem, que só Glauber conseguiria fazer.
Uma surpresa, mesmo para Glauber Rocha
Entrei nesse curta sem saber nada, pois estava escrevendo outro post aqui para o blog sobre filmes que ganharam prêmios em festivais internacionais. E vi que esse curta havia vencido o Prêmio Especial do Júri – Curta-Metragem em Cannes. Pensei “preciso assistir pra saber o que falar para o pessoal do blog”, pois já havia visto todos os outros anteriores e gosto de escrever um pequeno texto sobre o filme pra aguçar a curiosidade de vocês.
E lá fui eu assistir ao filme. E para minha surpresa tá Glauber Rocha falando loucamente, lendo notícias de polêmicas sobre si mesmo, filmando um morto num caixão, contando histórias, lendo poemas, tudo na maior velocidade, cheio de cortes secos, músicas, falas emboladas… Loucura total. Completamente maravilhoso.
Para quem, como eu, não entendeu o que estava acontecendo, Di Cavalcanti, um grande pintor brasileiro, carioca, amigo de Glauber, havia acabado de falecer. E Glauber, ao ouvir a notícia, foi até o enterro. Mas não foi sozinho, e sim com uma equipe, câmera na mão, e filmou tudo, até mesmo Di Cavalcanti morto no caixão. Sem avisos, sem cerimônia. E o resultado foi fantástico.
O curta é lindo. Uma homenagem e tanto. Arte sobre a arte. Provocativa, mas carinhosa, intensa, mas cheia de afeto. Engraçada e emocionante, tudo ao mesmo tempo.
A representação máxima do caos da morte
Estava lendo um pouco sobre e nesse artigo d’O Globo vi essas aspas do próprio Glauber sobre o curta, explicando para a família, que o processou pela filmagem invasiva, que “filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso, o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição”.
Eu acredito nele. Concordo com ele. A filmagem foi apenas uma maneira chocante de celebrar a vida de um amigo. Parecido com velórios da vida real, onde você, seus familiares e amigos rememoram momentos engraçados, divertidos ou orgulhosos do morto, em meio à toda tristeza. Glauber conseguiu passar tudo isso em filme. Todo o caos que está na sua cabeça no momento. As coisas boas, as lembranças, e também a realidade na sua frente. Tudo. De forma inventiva, provocativa, engraçada, emocionante, maluca, que só Glauber Rocha poderia fazer.
Links interessantes:
O filme Di Cavalcanti ou Di Glauber pra você assistir gratuitamente no YouTube.
Um artigo do grande Ismail Xavier sobre o filme.
Michael Renzetti é o criador do Perigoso Divino Maravilhoso. Um pseudo-escritor e comentarista do cinema brasileiro, com formação crítica construída em cursos realizados na Escola Livre de Cinema, Cinética, CineCuti, entre outros, onde aprofundou seus estudos em teoria, análise fílmica e pensamento cinematográfico. Penetra em importantes festivais do país — como o CineBH, a Mostra de Tiradentes, a CineOP e o Olhar de Cinema — desenvolveu um olhar atento ao audiovisual nacional, articulando repertório acadêmico e vivência de circuito.

