O Ébrio (1946)

Crítica: O Ébrio (1946)

Cobertura CineOP 2026 — PDM

O Ébrio é um filme de ficção, drama, é musical brasileiro, adaptação de uma peça de Vicente Celestino (também o protagonista) feito pela Gilda de Abreu em 1946. Conta a história de um homem que sofre a perda da fazenda da família, vai para a cidade grande, não recebe a ajuda que esperava de familiares da cidade e vive várias aventuras envolvendo um padre, um casamento, medicina, cantoria, rádio e um fim trágico por causa da bebida, tornando-se “O” ébrio.

Introdução

Eu já tinha visto O Ébrio uma vez, há muitos anos, para um estudo de cinema brasileiro, e já tinha me saltado aos olhos o quão à frente do tempo, quão complexo e interessante esse filme é. O Ébrio apresenta muitas pautas complexas e é bastante moderno pra época em que foi feito.

Muito pode ser dito sobre sua visão de relacionamentos e comportamentos, e, prioritariamente, pelos comportamentos femininos do filme. Também sobre interações de alguns personagens, as empregadas das famílias, que, teoricamente, deveriam estar inferiorizados e relegadas a papéis sem falas, ou apenas de subserviência, pela época, mas não eram.

Se a gente fizer o Teste de Bechdel em O Ébrio, o filme passa facilmente pela prova. Para quem não sabe, o teste é basicamente ver três coisas: 1 – Ter pelo menos duas mulheres; 2 – Elas conversarem entre si; 3 – O assunto da conversa não ser sobre um homem. Apesar de muitas das conversas das mulheres na história serem sobre homens ou sobre relacionamentos, há bastante mulher e mulheres muito fortes no filme como um todo.

O que é O Ébrio?

O Ébrio é um drama focado na história de Gilberto Silva, um rapaz que passou por muitos infortúnios em sua vida. Ele estava viajando para estudar na capital quando o pai perdeu a fazenda da família. Ele, então, voltou para o interior, trancou o curso de medicina para tentar recuperar a fazenda, mas não deu certo. Ficou sem nada. 

Então decidiu voltar para a cidade para finalizar o curso de medicina e procurou ajuda dos parentes para ter onde morar e conseguir realizar o plano de virar médico. Só que, para sua tristeza, nenhum dos parentes quis saber dele.

Os primeiros parentes fingiram estar viajando. Só que, ao ir embora, ele os ouve conversando na janela, falando que não querem manter um parente sem dinheiro dentro de casa. Depois, Gilberto vai atrás de outros parentes que também fingem não estar na cidade, outros chegam até a mudar e não dar o novo endereço a ele. No fim, ele não teve ajuda de ninguém.

A Igreja

O único lugar em que as portas estavam abertas para ele foi a igreja. Lá dentro, encontrou um excelente padre. Devo dizer que o ator me irritou profundamente em praticamente todas as interações. Ele não atua bem. Parece muito um não-ator atuando. Ele tem essa coisa de encher o peito e declamar todas as frases, como se atuar fosse isso. Fui pesquisar e O Ébrio é o primeiro filme dele, então isso pode explicar um pouco.

Mas o padre é um personagem fantástico. Ele só quer ajudar e acolhe Gilberto, diz que tem um quarto disponível na igreja e que ele pode ficar ali como hóspede até conseguir se reerguer. Dito e feito.

Gilberto ouve no rádio que haverá um concurso de calouros para cantores. Ele vai até a rádio e, como é o Vicente Celestino na vida real, que era um grande cantor da época — tanto que escreveu o filme junto com Gilda de Abreu baseado em sua própria peça  —, canta lindamente uma música sobre como o padre deixou as portas abertas para ele, como a igreja e Jesus o ajudaram a não morrer de fome nem ficar na rua.

Ele ganha o prêmio. Mas o dinheiro não era para ele. O que Gilberto queria era trocar o vidro quebrado da igreja. O padre tinha colocado um papel no lugar e ele percebeu que a paróquia também estava passando por dificuldades e decidiu ajudar. E, como ele cantou muito bem e venceu o concurso, as pessoas queriam continuar ouvindo sua voz.

A rádio

Naquela época, nos anos 40 e 50, eram comuns as grandes estrelas do rádio. Elas tinham programas, cantavam diariamente e recebiam cartas dos ouvintes. O próprio Vicente Celestino era uma dessas grandes estrelas. Então as pessoas começaram a mandar muitas cartas para ter de volta Gilberto Silva como um cantor contratado.

E ele não quis se apresentar de volta, fez aquilo apenas pelo dinheiro da janela. Mas o padre ouviu que estavam procurando por Gilberto Silva no rádio um dia, ligou de volta para a rádio e falou que conhecia Gilberto Silva, e o faria ir lá. Depois aconselhou Gilberto a ir, porque seria mais uma oportunidade, mais uma porta aberta para ele.

Ele foi e virou o cantor contratado. Mas continuou lá na igreja, continuou com o padre, e foi melhorando de vida, até que finalmente conseguiu finalizar o curso de medicina.

Um aspecto muito interessante de O Ébrio (1946) é que ele vai longe. Passa meses e meses, acontecimentos e mais acontecimentos. É quase que um ÉPICO. Porque ele não só chega na cidade. Ele tem um problema, passa pelos infortúnios, vira cantor, é contratado, vira médico, e começa a trabalhar com medicina. E isso é meio que apenas a introdução à grande história. 

Agora sim, O Ébrio 

Nessa parte da medicina é onde ele encontra nossa grande protagonista Marieta, que vai ser o grande par amoroso e a grande alavanca de tudo no filme, que vai construir a história d’O Ébrio.

Sua introdução já vem com aquele diferencial que citei lá em cima. Marieta é quem dá em cima de Gilberto. Ela é quem inicia as conversas, e faz com que ele se apaixone por ela. 1946 e temos uma mulher, enfermeira, com iniciativa que não está sendo importunada pelo médico, e sim o contrário. Excelente. Conversa vem, conversa vai,  os dois se casam e aí começam os problemas.

A família da cidade, que esnobou Gilberto no primeiro momento, agora queria tê-lo por perto novamente, já que ele obteve sucesso tanto como cantor quanto como médico, morava numa bela casa, estava cheio de  dinheiro. E resolveram partir para o ataque no casamento de Gilberto com Marieta.

O primo José foi ainda mais ousado e tinha um plano de seduzir Marieta para conseguir o dinheiro de Gilberto para si. E ele foi o pivô das confusões. José ficava o dia inteiro na casa de Gilberto dando em cima de Marieta, tentando cometer o maior pecado do mundo contemporâneo. E aí temos mais dois toques à frente do tempo. 

Sedução e drama

Marieta sabia o que ele estava fazendo e gostava. Ela não era uma donzela indefesa, que estava sendo atacada por um galanteador barato. Ela dava corda, ia com ele a lugares, sempre com um sorrisinho. Não era inocente. E a empregada da família, Salomé, ficava de olho em tudo, sempre atrás de uma porta, sempre num cantinho, julgando todos os comportamentos errados deles.

Como o texto já está bem grande, vamos ao resumo da ópera (inclusive, esse ditado funciona bem para o caso, já que a história é um épico digno de óperas):

José trama um plano de fingir que Gilberto estava traindo Marieta por conta de um medalhão que roubou dele, e a convence a largar o marido. Assim, Gilberto fica devastado e desiste de tudo. Assiste um atropelamento de um bêbado e finge ter sido atropelado, para acabar com a vida do Gilberto Silva e se transformar no Ébrio. Um pouco dramático demais, se você quer saber a minha opinião. Supera, meu amigo.

Oscar pra Gilda de Abreu

Ufa, O Ébrio (1946) tem muita história. E acho que isso demonstra como esse filme é fantástico. Gilda de Abreu conseguiu, em 1946, contar uma história gigantesca, com grandes passagens de tempo, acontecimentos intensos, plot twists, tragédias, mulheres fortes, mulheres salafrárias, música, e tudo mais que tinha direito, de forma magistral. Cadê o Oscar dessa mulher? 

Além de tudo, o filme foi um grande sucesso e teve uma das maiores bilheterias da história do Brasil. Coisa linda demais. A diva fez tudo pelo nosso cinema. 

É maravilhoso que tenham conseguido restaurar e exibir novamente essa joia do nosso cinema, e mais maravilhoso ainda é que consegui vê-lo na telona, em plena Praça Central de Ouro Preto. É esse tipo de experiência gostosa que só a CineOP pode nos proporcionar (parece, mas não é #publi).

Aliás, interessantíssima a situação da restauração d’O Ébrio. A diva Alice Gonzaga, da Cinédia, filha do fundador da Cinédia, estava lá para apresentar essa reconstrução do filme, e falou tudo sobre o estado da preservação do cinema brasileiro. E é sempre a mesma história. São pessoas aleatórias preservando filmes pelo amor ao cinema e suas histórias pessoais, e nada do estado brasileiro presente pra ajudar, nem empresas apoiando, nada. 

Não entendo como ainda não conseguimos preservar todos esses filmes que sabemos há anos que se tratam de jóias de nossa cultura. A maioria está jogada no YouTube, em qualidade ruim. Aparentemente temos um projeto para os próximos dez anos, e a Tela Brasil finalmente saiu com alguns desses títulos importantes. Estamos começando (em 2026).

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