Resumo
Fraternura (2026) é um documentário que conta a história de Frei Betto, da infância até a vida adulta, do “civil” ao frei, de filho para irmão para “pai-irmão, por um ângulo bem familiar.
Uma história incrível
A história de Frei Betto, por si só, já é incrível. Tudo que ele passou, por onde andou, com quem conversou, tudo. Qualquer recorte da vida dele é interessantíssimo. Ah, vamos ver esse período X: ele tá entrevistando o Fidel Castro em Cuba. Vamos ver o período Y: ele tá ajudando o Lula a acabar com a fome. Vamos olhar o período Z: ele está sendo preso pela ditadura.
Então parece “fácil” produzir algo interessante sobre Frei Betto. Ainda mais num formato de documentário. Pegue jornais, reportagens, fotos e algumas pessoas chaves, faça entrevistas e uma belíssima montagem, e você tem uma ótima história. Claro, não é tão simples, mas te garanto que o resultado será bom, interessante.
E daí vem duas percepções sobre o documentário. Uma negativa e outra super positiva.
Percepção negativa
Por ter uma vida muito interessante, a história de Frei Betto, por si só, já cria um grande documentário. Assim, não achei que a forma de Fraternura (2026) muito apurada. Não é dos melhores documentários pensando apenas na técnica. Temos escritos na tela, algumas animações um pouco genéricas, jornais, fotos e entrevistas, o básico, bem formato TV, rede globo, limpo.
Sinto que faltou movimento, ousadia, ângulos diferentes, para uma construção mais robusta de documentário. Inclusive sinto que parte da história precisava disso. Quer algo mais intimista? Faça mais câmera na mão, se coloque na tela, quebre esse formato tão “simples” de filmagem, vá aos locais hoje, leve o Frei Betto lá, a família, amigos. Dei o exemplo aqui de Esta Não é a sua Vida (1991) que faz exatamente isso de forma magistral. Faltou linguagem cinematográfica.

Percepção positiva
Agora, toda a história pessoal de Frei Betto com seu irmão é um acerto absurdo do filme. Sai de um documentário básico do Frei Betto, com tudo que você espera de uma pessoa histórica, e vai para uma parte íntima, que pouca gente sabe, dá ainda mais humanidade (se é que isso fosse possível) para uma figura tão icônica.
É até bem corajoso e visionário ir por esse lado. Normalmente histórias do Frei Betto tem horas e horas de momentos icônicos de Brasil, mundo, ditadura, socialismo, luta, política, e seria fácil pensar que esses são os únicos momentos que interessam para o público.
Colocar esse momento tão pessoal, que pode acontecer com qualquer um, que já vimos diversas outras vezes com diversos outros personagens, junto a partes dessa grande história, e conectar com esse personagem tão icônico, cria uma nova camada de compreensão, de Frei Betto, de vida, que enriquece muito toda a obra.
Uma grande história
Fraternura (2026) não é, tecnicamente, um grande documentário, mas apresenta, com muita coragem, uma grande história. E, no fim, estamos aqui por grandes histórias, de qualquer forma que conseguirmos criar ou experienciar todas elas. É maravilhoso ter esse pedaço de vida disponível para ver e rever. Viva Frei Betto.
Links espertos:
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Michael Renzetti é o criador do Perigoso Divino Maravilhoso. Um pseudo-escritor e comentarista do cinema brasileiro, com formação crítica construída em cursos realizados na Escola Livre de Cinema, Cinética, CineCuti, entre outros, onde aprofundou seus estudos em teoria, análise fílmica e pensamento cinematográfico. Penetra em importantes festivais do país — como o CineBH, a Mostra de Tiradentes, a CineOP e o Olhar de Cinema — desenvolveu um olhar atento ao audiovisual nacional, articulando repertório acadêmico e vivência de circuito.

