Edifício Master (2002)

Crítica: Edifício Master (2002)

Resumo:

Edifício Master (2002) é um documentário feito por Eduardo Coutinho, o vice GOAT do documentário (atrás apenas de Agnes Varda), que conta histórias de moradores do icônico edifício em Copacabana. 

Um dos melhores filmes já feito

Pronto, vou colocar esse título aqui pra não ter dúvidas e pra gente passar logo para percepções pessoais. Edifício Master (2002) é um dos melhores filmes já feitos. Não só no Brasil, é um dos melhores filmes do mundo. 

Inclusive, estou procurando aqui e não entendi por que Edifício Master (2002) não foi ao menos indicado ao Oscar. Se ele foi lançado em 2002, deveria disputar em 2003 – que teve como vencedor o razoavelmente inferior Tiros em Columbine do Michael Moore. Enfim. 

Então tiramos isso da frente, né? Não preciso te dizer o quão bom é Edifício Master. Você já sabe, eu já sabia antes de assistir, é um ícone da nossa cultura cinematográfica. Então vamos falar de sentir sentimentos. 

Sentindo sentimentos 

Quando vou assistir a documentários desse tipo, o sentimento geral que sempre me ataca é: “meu Deus olha como a vida é linda, diversa, complexa e como todas as pessoas são incríveis”. 

Nós sabemos disso. Sabemos que nossas histórias, por mais comuns que sejam, são importantes. Que passamos por muitas coisas, e vivemos, sobrevivemos e vencemos, pelo simples ato de estarmos vivos. 

Mas, ao sermos atacados pela rotina do dia a dia, pelos problemas estruturais da sociedade, por nossos problemas pessoais e tudo que precisamos fazer, esquecemos que somos maravilhosos. Esquecemos uns dos outros, do sentimento básico que forma a humanidade, de estarmos junto, sermos todos irmãos. Precisamos de filmes assim de vez em quando para trazer esse sentimento de volta. 

Conexões em outros filmes

Isso me lembra sempre esse curta documentário do Jorge Furtado, que está sempre nos tentando ensinar como o cinema funciona, chamado Esta Não é a sua Vida (1991)que você pode assistir gratuitamente no YouTube aqui.

Tem crítica completa dele aqui, mas ele nos ensina basicamente isso. Que as pessoas não são números e, se você pega uma pessoa aleatória na rua pra contar sua história, você vai ter ali algo fantástico, incrível, emocionante, mesmo sendo a mais trivial das jornadas de vida (e nunca é). 

Em alguns minutos ela nos conta histórias de abandono parental, depressão, trabalho infantil, superação, romances complexos, racismo, escolhas, a falta de escolhas e tudo mais. Riquíssimo. Sobre uma pessoa simples de uma cidadezinha do interior. 

Outro excelente filme que nos mostra algo parecido é o Visages, Village (2017) da GOAT Agnes Varda com o artista Jr.. É lindo como eles conseguem conectar o trabalho visual dele com o trabalho fantástico de ouvir histórias dela. Temos um filme perfeito que conecta artes de forma complementar, ouvindo histórias lindas de pessoas comuns em pequenas cidades e essas pessoas sendo eternizadas em lindas instalações. 

A delicadeza de Eduardo Coutinho 

Em Edifício Master (2002) Eduardo Coutinho faz com maestria esse trabalho de contar as histórias de vidas “ordinárias” das pessoas desse prédio. O prédio não é o personagem, não é sobre a construção, e sim sobre como suas robustas instalações conseguem comportar tantas e tantas histórias fantásticas de pessoas comuns. 

De jogador de futebol a garota de programas, ator a empregado de empresa aérea estadunidense, todos têm grandes histórias de vida para contar, grandes momentos, exemplos, arrependimentos, orgulhos. Tudo é maravilhoso. E é tudo sobre as pessoas, no que acho que seja a coisa mais importante sobre um bom documentarista. Não deixar tudo ser sobre você. 

Eduardo Coutinho, em 2002, já era consagrado como um dos grandes documentaristas do mundo. Mas ele não faz com que seus filmes sejam sobre si próprio. É sempre o outro. Ele só intervém com dúvidas singelas, pertinentes, feitas de forma simples. Essa delicadeza dele é o que faz de Edifício Master (2002) e todas suas outras obras sejam tão especiais. 

A arte do documentário é bastante difícil. Se você faz algo objetivo demais, soa como reportagem. Se você faz algo experimental demais, soa como uma viagem. Se você se coloca demais na obra, soa como egocêntrico. Se se bota de menos, soa sem personalidade. É difícil achar a medida correta. 

Sinto que é algo bem natural para algumas pessoas. Eduardo Coutinho, Agnes Varda, tem o dom da curiosidade genuína e amor pelas pessoas, pelas histórias. Outros, e podemos citar aqui Petra Costa como uma representante da classe, parecem se achar importantes demais, especiais demais, e tudo soa meio falso. Eles são metidos a grandes documentaristas, o que os torna pequenos. 

Aspas e mais aspas

É sempre bom saber o que a própria pessoa fala sobre seu filme, não é? Pesquisando sobre Edifício Master e o Oscar (que não tem nenhuma resposta na Internet), vi que a Contracampo fez uma super entrevista com Eduardo Coutinho sobre Edifício Master (2002). Não sei o que está rolando com o site deles, que se encontra fora do ar, mas consegui pegar a última versão da página na Wayback Machine e vou reproduzir aqui algumas partes interessantes. 

De onde veio a ideia de Edifício Master (2002):

“O filme nasceu da idéia da Consuelo Lins, que trabalha comigo, de fazer um filme sobre um prédio em Copacabana. Eu então roubei a idéia com o consentimento dela porque me interessava filmar em um universo com limites claros. Não queria fazer filme sobre a classe média, mas sobre um universo que não se conhece. Tinha de ser em prédio grande, de apartamentos conjugados e com perfil familiar, caso contrário inviabilizaria a filmagem. O desafio seria extrair um material interessante de pessoas normais. É muito mais fácil fazer um filme sobre marginais que sobre pessoas de classe média.”

Filmar pessoas comuns:

“No mundo da classe média, é muito mais complicado. Mas tinha de ser em um prédio só. O que é bom em uma locação só? A possibilidade de se aprofundar. Em vez de trabalhar na extensão, você trabalha em profundidade. Para mim, documentário é escavar. E esse limite te inibe os vôos ideológicos e idéias pré-concebidas. Quando você tipifica uma pessoa, quando você a objetiva, você mata a singularidade da pessoa. É a destruição moral e cívica do indíviduo e do personagem. Ela não pode ilustrar uma idéia generalizada minha. Tenho de criar uma prisão para encontrar os personagens no escuro. Precisa ter esse risco porque cria um sentimento de urgência.”

A montagem caótica para lidar com pequenas histórias cotidianas:

“No caso do Master, achei que ia me lascar. As experiências de vida eram menos fortes, as pessoas eram mais fechadas, a narrativa das experiências eram menos ricas. Eu precisaria de muitos personagens para dar um filme. Não haveria relatos extraordinários. A diversidade de experiências é que seria essencial naquele universo. Tinha de ser um filme longo, de quase duas horas, com 27 apartamentos. Cortamos 10. Também não podia ter eixo temático, ao contrário de Santo Forte e Babilônia 2000. O prédio é apenas uma pista falsa. Isso era um complicador dramatúrgico. Como eu ordenaria esse material se havia todos os temas possíveis? Decidi pela montagem caótica. Procurei conservar a ordem da filmagem, que não tinha um padrão. Isso não leva ninguém a ter certeza do que virá depois de cada personagem. Não há uma regra.”

Sobre verdades e mentiras nas histórias:

“Essa garota de programa esvazia a banalíssima discussão dos limites entre verdade e mentira. Se o cara me contar algo bem, não tenho como não acreditar, seja lá o que ele estiver contando. É uma relação subjetiva, não objetiva, a que mantenho com os personagens. Não importa se aquele senhor cantou com o Frank Sinatra. Para mim, ele cantou. Isso elimina o lixo da pesquisa. É diferente se estou lidando com fato histórico ou com um mitomaníaco. Seria um filme interessante, aliás, um documentário sobre mitomaníacos.”

Aqui ele dá a aulas e aulas sobre documentário:

“Essencial é a interferência da minha voz para intervir na conversa e esclarecer alguma coisa. Faz parte do jogo. Em um documentário americano clássico, isso seria um pecado mortal. Os ganhadores de Oscar de documentário, por exemplo, são muito piores que os da ficção. Pegam um cara famoso, botam cenas de arquivo, gente falando dele e acabou aí. A auto-referência às vezes é inevitável. Como não interromper a pessoa para perguntar por que ela está me dizendo aquilo? Ás vezes é a única questão fundamental, por que ela está falando aquilo? Vi outro dia um documentário do Channel Four, exibido no GNT, sobre jovens que tinham enriquecido, e tinha um estelionatário entre os entrevistados. Ele conta os estratagemas ilegais que faz para viver, e o diretor não o interrompe para perguntar por que ele está contando. Ora, liquidou o filme. Ou o cara é uma fraude, como acontece em muitos documentários, que inventam personagens. Como não perguntar para aquela moça do Master por que ela insiste em não olhar para mim? Esse filme também é sobre olhar, ver sem ser visto, ser visto sem ser, ver sem ouvir, ouvir sem ver, sabe? E essa moça de repente acaba falando disso. Ela sobe o elevador torcendo para ninguém entrar. E eu tenho isso. Precisava interrompê-la e aí ela faz um quadro da selva de pedra. Afirma que não olha para ninguém, que teme as pessoas. Isso é maravilhoso.”

Aqui ele simplesmente sintetiza tudo que eu tentei falar lá em cima:

“E por que falam para mim e não para outros documentaristas? Porque eu preciso que eles falem. Os outros não. Eles já têm idéias prontas. Os outros julgam, querem ver o que projetaram antes, têm todo um a priori. Querem mudar o mundo mudando o personagem. Eu não quero nada do personagem. Não quero julgar. O cara pode ser pedófilo e eu digo “vamos lá”. Tenho de tentar encontrar o normal no singular e o singular no normal. No fundo, é preciso estar desesperado para ter esperança.”

E tem muuuuuito mais, leia tudo aqui

Links espertos:

A entrevista completa na Contracampo (que eu acabei de postar ali em cima hein, vacila não) 

Compre o DVD duplo do filme no Mercado Livre

Onde assistir Edifício Master (2002)? Tem na Netflix.

Gosta de documentário? Leia todas as críticas de documentários aqui.

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Comentários

One response to “Crítica: Edifício Master (2002)”

  1. […] um pouco sobre esse filme na crítica de Edifício Master (2002), […]