Documentário sobre a trajetória da cantora Baby do Brasil, que conta, de sua adolescência até a carreira solo, a psicodelia apopcalíptica desse ícone da nossa música.
Fiquei impressionado do quão GOSTOSO foi percorrer esses 109 minutos de documentário sobre Baby do Brasil. Não tenho uma grande relação com a cantora. Gosto de Novos Baianos, acho engraçadíssima toda sua interação com a TV nos anos recentes, suas filhas e seus nomes confusos, sua religiosidade confusa (pra mim), mas não pensava muito nela, nem a via como esse ícone que o documentário construiu. Mas parando pra pensar vem (e agora com todo um documentário pra provar) realmente ela é um super ícone da nossa música.
Ela fez parte de um movimento musical absurdo, estava em muitos momentos históricos do país, ao lado de pessoas incríveis, e, o mais maluco é que foi tudo tão orgânico, sem planejamento, que parecia estar escrito nas estrelas.
Uma das primeiras histórias, de como ela foi parar na Bahia, é de uma doidera sem tamanho. Ela simplesmente ganhou uma passagem de ônibus após ter ajudado uma moça na rua. Uma loucura pensar que todo o destino dela foi traçado por essa situação aleatória. E se ela não aceitasse? Não iria pra Bahia, não iria conhecer os Novos Baianos, não seria uma nova baiana, nada disso aconteceria. Fica até difícil não acreditar em destino.

Pois ela foi pra Bahia. Mas nada disso garantiria que ela fosse conhecer todos os grandes artistas que conheceu. Mais uma vez a história parece ter sido escrita nas estrelas. Ela simplesmente vai até o local em que todos estão se apresentando e entra, sem ingresso, sem conhecer ninguém, nada. E vira amiga de todo mundo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, toda a turma. Impossível. Isso parece coisa que roteirista preguiçoso faz pra avançar a história do protagonista. “Ah, ela vai pra lá e conhece todo mundo no primeiro dia e se torna parte do grupo”. Isso literalmente aconteceu. Doideira com confusão.
E depois, se já não bastasse essa confusão toda, tome mais confusão. Ela é expulsa da casa em que estava (da moça que ajudou e sua mãe), por ser menor de idade. E passa a morar debaixo de uma ponte. Inacreditável. Bem, grande parte desse documentário é inacreditável. E isso é o que o torna tão divertido. As histórias são muito malucas, mas tem fotos, vídeos, e relatos de tudo. As coisas mais incríveis do mundo acontecendo com uma jovem divertida, inocente e destemida.

Não vou ficar aqui apontando todos os momentos e recontando a história, acho que é legal você ver por si próprio, mas outro momento que impressiona e me fez rir demais foi quando ela simplesmente se separa de todo mundo e vai para o Rio de Janeiro. A história de como uma pessoa falou que ela parecia com Hippies e mandou ela atrás do grupo é fantástica. Ela simplesmente foi pra lá e apareceu no jornal como uma Hippie. Incrível. E pra melhorar, no Rio ela reencontra todos os Novos Baianos e aí sim coloca a banda pra funcionar. De novo, de forma orgânica, sem planejamento, escrito nas estrelas.
O documentário é muito bom em nos contar todas essas histórias, muito gostoso de assistir, engraçadíssimo e muito respeitoso com Baby e toda sua história. Ele faz justiça a um ícone da nossa música que foi muito julgada e “caracturizada” por suas crenças religiosas.
Michael Renzetti é o criador do Perigoso Divino Maravilhoso. Um pseudo-escritor e comentarista do cinema brasileiro, com formação crítica construída em cursos realizados na Escola Livre de Cinema, Cinética, CineCuti, entre outros, onde aprofundou seus estudos em teoria, análise fílmica e pensamento cinematográfico. Penetra em importantes festivais do país — como o CineBH, a Mostra de Tiradentes, a CineOP e o Olhar de Cinema — desenvolveu um olhar atento ao audiovisual nacional, articulando repertório acadêmico e vivência de circuito.

