Resumo:
As Boas Maneiras (2017) é um filme de terror dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra que conta a história de duas mulheres, Ana e Clara, patroa grávida e babá, respectivamente, e todos os problemas da gravidez de um lobisomem.
E tome mais filme perfeito
No texto sobre O Agente Secreto, disse:
“Deve existir, provavelmente, uma dezena de filmes perfeitos. Filmes que não tem erros, que cada segundo é feito da melhor maneira possível, que cada quadro é essencial, que cada linha de diálogo tem exatamente a frase que deveria ser falada naquele momento, que tudo se encaixa de forma tão perfeita que parece ter sido feito sem esforço nenhum. E que, certamente, foi feito com um esforço descomunal, beirando a obsessão.”
E não é que oito anos antes de O Agente Secreto (2025) e dois anos antes de Parasita (2019) a gente tinha outro filme perfeito aqui no Brasil, tranquilo, nos aterrorizando com um mini lobisomem?
As Boas Maneiras (2017) é um filme perfeito. Anotei várias outras coisas pra falar sobre, como: racismo, relação patrão/empregado, diferenças sobre criação de crianças, todo um papo sobre a “Primeira infância”, métodos contemporâneos de ver a gravidez e o desenvolvimento de crianças, o cuidado antigo, e tudo o mais (e isso tá exposto nos dez primeiros minutos de filme).
Mas minha atenção mudou, o que mais gostei em As Boas Maneiras é como tudo é construído de forma magistral. E também já discuti muito disso tudo na crítica de Trabalhar Cansa (2011), outro filme incrível da dupla.
Todas as cenas são perfeitas
O filme não perde um segundo de cena. Cada quadro importa, conta a história, nos dá mais detalhes, mais elementos que se pagarão no futuro. Olhava pra cada objeto e pensava “isso aqui vai voltar de forma incrível mais pra frente” e voltava. As Boas Maneiras é uma aula sobre A Arma de Chekhov.
Então ao invés de discutir, pensei em seguir toda a história de As Boas Maneiras (2017) e ir mostrando como cada segundinho é incrivelmente bem construído e não poderia ter sido feito de outra… maneira.

As Boas Maneiras começa com a entrevista de emprego de Clara. Ela chega no prédio e Ana não lembrava que tinha marcado o horário com ela, estava no meio de outra entrevista. Mas mesmo assim ela entra, e é a avisada pelo porteiro que o elevador de serviço é o da esquerda. Já o primeiro lembrete bem brasileiro de que Clara não é vista como um igual ali.
E tudo piora na entrevista. Ana está terminando de falar com outra pessoa, que, pelo diálogo, é uma expert em crianças, que sabe tudo sobre gravidez, primeira infância, todas as técnicas e estímulos corretos para se cuidar de bebês. E ela é cara. Não aceitou a proposta de Ana, fez uma contra proposta.
Ao passo que Clara, coitada, mentiu em seu currículo, que nem é um currículo, um curso de enfermagem pela metade e ter cuidado da vó e da locadora de seu imóvel, que, inclusive, dá um show em todos seus momentos em tela. Até na ligação nesse início, sem aparecer, ela é incrível, pedindo o controle remoto de volta.
Confusões perfeitamente construídas
Um pequeno parêntesis aqui, que nos leva para toda a confusão do filme. É engraçado que, nesse trabalho de doméstica, cuidadora, babá, o patrão te faz uma inquisição completa, precisa saber tudo sobre você pra te colocar pra dentro de casa, mas o contrário não acontece. Você não sabe em que vida você está se metendo ao aceitar trabalhar para eles. E nós vamos ver isso de forma bastante intensa com Clara.
Já dava pra ver desde o começo que tinha algo de esquisito com Ana, através da excelente atuação de Marjorie Estiano (novamente num bom filme de terror hein? Leia sobre Abraço de Mãe aqui). Ela é esquecida, meio “foda-se”, confusa, mora sozinha numa casa chique, não sabe cozinhar, nada. Até por isso vê em Clara uma oportunidade de ter uma “empregada/enfermeira completa” e segue por contratá-la, após ser ajudada numa situação de dor.

Num dos primeiros momentos de foco do filme vimos que Ana só tinha pacotes e pacotes de carne bem sangrenta na geladeira. E essa é uma das construções perfeitas que vão nos seguir ao longo da história.
Só tem carne na geladeira, depois tem uma excelente cena de Clara trocando a carne por legumes e folhas, depois tem Ana acordando durante a noite procurando carne e mordendo Clara, e depois matando o gato na rua para comer sua carne. Por fim, a carne feita pela locadora do imóvel é a catalisadora da raiva e rebeldia do menino lobisomem, que passou toda sua vida privado do alimento. Toda construção do pacote de carne até o ato final.
Outro elemento que vem desde o início é a arma. Clara a vê num dos primeiros dias, arrumando a casa. Depois confronta Ana sobre, e descobre a história da gravidez e do lobisomem. Ana atirou no pai/lobo da criança/lobo. Depois a arma volta em cena para Clara atirar no próprio filho/lobo adotado. Poesia.
Não para de ter elemento
Quer mais elemento? A dança. Ana está sempre dançando. As piores e mais incríveis músicas. Dança grávida para se exercitar, para afogar as mágoas no aniversário e para se divertir. Chora me liga implora meu beijo de novo. E quem vemos dançando anos depois com Clara, sua mãe adotiva? Joel, a criança lobisomem. É um dos filmes que melhor usa vídeos musicais de exercícios.
Quer mais música? Toma a caixinha de música. Ana e Clara tem uma das maiores cenas do filme juntas, cantando a música da caixinha. Ana não lembra a letra, mas faz um excelente e emocionante trabalho cantando. E isso volta? Certamente. Na cena derradeira do filme, menino lobisomem e mãe adotiva contra o mundo, e como ela o acalma e o traz para seu lado? Com a canção da caixinha. Cinema absoluto.

E essa não é a única caixa importante. Temos a icônica caixa de sapatos das botas que Ana comprou no shopping. Primeiramente ela representa a confusão na vida da personagem, que tem o cartão recusado na hora da compra, tem a interação esquisita com uma conhecida. Algo não está bom ali. E ela volta, e novamente de maneira icônica.
A caixa de sapatos é o local onde Clara guarda todas as lembranças de Ana. É onde estão as fotos, e um cartão do shopping. E o que isso faz? Com que o menino lobisomem rebelde descubra tudo e vá com um amiguinho atrás da verdade. Ele fica até de noite no shopping, mata seu companheiro de aventuras e inicia o fim da tranquilidade na casa.
Não para de ter conexão
Quer mais conexão? A casa é outro elemento super importante. O espaço físico é milimetricamente importante. No início, quando Clara vai à entrevista, vemos a casa de Ana, grande, com porteiro, imponente. Já quando volta pra casa está chovendo, ela desce, passa por um beco. E está devendo a locadora, então precisa se esconder.
Depois, quando o tempo passa, vemos isso exclusivamente pela casa. Uma casa triste, com trapos no varal se transforma numa casa feliz, pintada, com plantas e roupas de criança no varal. Ana e criança lobisomem perseveraram. Eles venceram. Ou era o que pensávamos. Por ser escondida, num beco, Clara conseguia manter como segredo a transformação. E tinha um quarto super protegido para o lobisomem.

No fim, quando o segredo foi descoberto, e a incrível multidão enfurecida a la Frankenstein ou A Bela e a Fera, saída da festa junina com suas tochas modernas (luzinhas led), vai atacar a casa, o que vemos? O beco invadido, as plantas quebradas. Aquele lugar seguro se transformando no pior pesadelo dos dois. E o quarto prisão, que protegia o mundo do lobisomem agora serve para proteger o lobisomem do mundo. Vem me falar que isso não é perfeito?
Enfim, poderia falar sobre muitos outros detalhes, pois, acredite, tem muito mais. Mas só vou dizer que As Boas Maneiras (2017) é o melhor terror brasileiro que já assisti e, se bobear, um dos melhores terrores de todos. Ponto final.
Links Espertos
Onde assistir As Boas Maneiras? Na Netflix, pra quem paga mais dinheiro (não tem no plano com anúncios), ou no Prime Video naquelas confusões do Prime Video de ter que assinar outro streaming pra assistir um filme.
Compre uma belíssima cópia do DVD de As Boas Maneiras.
Leia essa entrevista interessantíssima com os diretores na VICE.
Leia outra crítica de terror brasileiro. E mais outra.
Jogue meus jogos
Michael Renzetti é o criador do Perigoso Divino Maravilhoso. Um pseudo-escritor e comentarista do cinema brasileiro, com formação crítica construída em cursos realizados na Escola Livre de Cinema, Cinética, CineCuti, entre outros, onde aprofundou seus estudos em teoria, análise fílmica e pensamento cinematográfico. Penetra em importantes festivais do país — como o CineBH, a Mostra de Tiradentes, a CineOP e o Olhar de Cinema — desenvolveu um olhar atento ao audiovisual nacional, articulando repertório acadêmico e vivência de circuito.

