Resumo:
Essa Não É a Sua Vida (1991) é um curta documentário de Jorge Furtado sobre a vida de uma dona de casa do Sul. Mas, ao mesmo tempo, é uma aula sobre documentários, histórias, e cinema.
Mais uma aula de Jorge Furtado
Nosso mestre Jorge Furtado adora nos ensinar coisas. Seja um resumo perfeito da obra O Capital de Karl Marx em A Ilha das Flores (1989), seja sobre a própria construção de um filme em Saneamento Básico, o Filme (2007), seja sobre histórias e documentário agora em Essa Não É a Sua Vida (1991).
Falei um pouco sobre esse filme na crítica de Edifício Master (2002), que:
“ele (Essa Não É a Sua Vida) nos ensina basicamente isso. Que as pessoas não são números e, se você pega uma pessoa aleatória na rua pra contar sua história, você vai ter ali algo fantástico, incrível, emocionante, mesmo sendo a mais trivial das jornadas de vida (e nunca é).
Em alguns minutos ela nos conta histórias de abandono parental, depressão, trabalho infantil, superação, romances complexos, racismo, escolhas, a falta de escolhas e tudo mais. Riquíssimo. Sobre uma pessoa simples de uma cidadezinha do interior.”
Acho que esse é um bom resumo pra gente começar a conversar sobre Essa Não É a Sua Vida (1991).
Somos todos Noeli?
Zé Mayer diz que essa não é a minha vida, que é a de Noeli. Realmente, ele está certo. Eu não saí de casa e fui viver com a minha tia. Eu não trabalhei de madrugada até de noite na fazenda, eu não frequentava bailes e tinha flertes confusos com homens estranhos, eu não me casei com um rapaz que minha família não aprovava, e eu não tive filhos.
Mas eu tenho diversos marcos parecidos de vida, poderia ser uma Noeli ali, na frente da câmera contando meus percalços e trajetórias. Tenho histórias com pais, com infância, com trabalho, com casamento. Diferente, mas parecido.
Somos todos iguais em nossas peculiaridades.

O que torna tudo tão interessante
Acho que a história de Noeli, ou de qualquer outra pessoa que contasse uma história diferente, mas parecida, para a câmera, se torna interessante porque nós nos conectamos a ela, colocamos nossas percepções, fazemos conexões com nossas próprias histórias e com nossa visão de mundo.
Por exemplo, dá pra conectar toda a fala de Noeli sobre ter sido criada pela tia com graves problemas estruturais da sociedade brasileira. A pobreza, o machismo, o desamparo, tudo contribuiu para que ela fosse entregue para a tia.
E o trabalho infantil? Dá pra tecer teses e mais teses sobre. Para qualquer espectro político. Dá pra falar que a ajudou a ser forte, mas dá pra falar que a condicionou a uma vida difícil. Tem muita coisa aí.
Nem vou falar sobre liberdade sexual e racismo, outros temas fortíssimos que ela tratou como pequenas notas em sua vida atribulada. Noeli viveu muito.
E o mais engraçado é que ela própria não acha que viveu tanto, que queria ter outra vida. É o que todos nós achamos. Mas a vida é isso, como diz John Lennon, é o que acontece quando estamos ocupados criando planos.

Olha o tanto de Noeli ao seu redor
Uma reflexão que esse filme sempre me traz é que todas as pessoas ao nosso redor são Noelis em potencial. Temos diversas histórias incríveis a nosso dispor no ônibus, num parque, na casa ou apartamento do lado. Todos vivemos vidas complexas, incríveis, que poderiam ser documentários do Jorge Furtado. Ou do Eduardo Coutinho.
E também todos poderíamos ser mais gentis, melhores, uns com os outros, se ouvíssemos as histórias uns dos outros. Se nos conectarmos melhor. Vem me falar que você não tem um carinho por Noeli? Que pode ser hoje uma bolsonarista ferrenha, que tenha ido no Sete de Setembro, que poste no Instagram textos terríveis? Eu gostaria dela mesmo assim.
Foram só 16 minutos de história pra me encantar e simpatizar com Noeli. Tão pouco tempo gasto para a criação de sentimentos tão bonitos. Tudo pode ser mais fácil.
Links espertos:
Onde assistir Essa Não É a Sua Vida (1991)? Na PerigoFlix, claro. Tem no YouTube também, bem aqui.
Leia também a crítica de Edifício Master, já que tá tudo conectado.
Quer mais documentário? Toma mais documentário.
Jogue meus jogos:
Michael Renzetti é o criador do Perigoso Divino Maravilhoso. Um pseudo-escritor e comentarista do cinema brasileiro, com formação crítica construída em cursos realizados na Escola Livre de Cinema, Cinética, CineCuti, entre outros, onde aprofundou seus estudos em teoria, análise fílmica e pensamento cinematográfico. Penetra em importantes festivais do país — como o CineBH, a Mostra de Tiradentes, a CineOP e o Olhar de Cinema — desenvolveu um olhar atento ao audiovisual nacional, articulando repertório acadêmico e vivência de circuito.


Comentários
One response to “Crítica: Essa Não é a sua Vida (1991)”
[…] do Jorge Furtado, que está sempre nos tentando ensinar como o cinema funciona, chamado Esta Não é a sua Vida (1991) – que você pode assistir gratuitamente no YouTube […]