Resumo:
Amores Possíveis é uma comédia (podemos chamar de comédia?) romântica de 2001, dirigida por Sandra Werneck, estrelada por Murilo Benício e Carolina Ferraz, que quer discutir o amor. Carlos (Murilo Benício) leva um cano de Júlia (Carolina Ferraz) que muda sua(s) vida(s) para sempre. Somos apresentados a três versões dela.
Multiverso do Murilo Benício
Muito antes do homem aranha e exatamente na mesma época d’O Clone, nós tivemos um multiverso de Murilo Benício em Amores Possíveis. Incrível. Três grandes versões diferentes de nosso herói das novelas e filmes brasileiros, todas bem diferentes entre si, mas que têm em comum o amor.

É muito bom como somos apresentados ao multi-benício-verso. É sempre a rotina de café da manhã. Ele acorda, primeiro junto à outra esposa (Maria), depois junto de Pedro, seu marido, e depois junto com uma punk aleatória, sendo acordado pela mãe. Sempre com as pernas coladas à outra pessoa, e sempre com o mesmo sonho, a noite que levou cano da Júlia no cinema. Ele come torradas, conversa com sua contraparte: 1 – outra esposa, 2 – marido, 3 – mãe, e segue sua vida, sempre pensando em Júlia. E aí somos apresentados a três histórias sobre como o amor por Júlia sobreviveu (ou não) aos 15 anos de diferença entre o dia do cinema e o presente.
Olha aí a linguagem cinematográfica em Amores Possíveis
Quero destacar que esse trio de cenas iniciais é extremamente bem feito, de um ponto de vista cinematográfico, com as mesmas batidas, os mesmos enquadramentos, a mesma forma de mostrar a vida.
Também é excelente de um ponto de vista narrativo, pois te faz entender tudo sobre como os personagens Carlos se desenvolveram nesse mundo. No primeiro você vê que ele é alguém bem sucedido preso numa rotina sem muita diversão. No segundo você vê que ele tem uma excelente relação com o marido e filho, mas uma péssima relação com a ex (Júlia) e no terceiro você vê que ele é um belíssimo cosplay do Evandro Mesquita.
Inclusive, um parênteses aqui. A cena do Carlos Evandro Mesquita (que é meu Carlos favorito) descrevendo para a falsa estadunidense suas preferências em mulher é simplesmente icônica. Top 10 momentos do cinema nacional.
Proposições sobre o amor
Apesar de algumas partes do roteiro parecerem extremamente expositivas, sem vida, apenas com o propósito de contar exatamente tudo que você precisa saber sobre a vida e o pensamento de cada um dos personagens, a história é excelente e genuinamente cativante, construindo boas proposições sobre o que é o amor, como ele se constrói, como ele se destrói, como ele pode sobreviver (ou não) ao tempo e como ele deve (ou não) quebrar barreiras para acontecer.

Cada Carlos precisa lidar com algumas formas de amor. O primeiro, da esposa, está “preso” em uma rotina, aparentemente sem amor, e Júlia reaparece como o que ele nunca teve, mas gostaria de ter tido durante toda sua vida. E, aparentemente, estava fácil fazer a escolha. Era “apenas” largar a esposa e viver seu grande amor.
Mas Júlia realmente era seu grande amor? Uma pessoa pela qual teve uma “quedinha” quando adolescente. Ou sua esposa, de anos, com a qual passou grande parte da sua vida é seu verdadeiro amor? Outro bom filme que toca nesse assunto é o Eternidade. Super divertido, recomendo. Cuidado aqui com Spoilers!!! Acho que Amores Possíveis faz melhor essa discussão. Realmente, a escolha final de Carlos me surpreendeu, ao passo que a escolha em Eternidade já me parecia certa há tempos.
Existem outras possibilidades para Carlos?
O segundo Carlos, do marido, tem a história mais complexa. Largou Júlia – havia conseguido conquistar o “sonho” -, e estava junto com outra pessoa, Pedro, há três anos, aparentemente num ótimo relacionamento. Mas tinha um porém. Carlos tinha um filho com Júlia e compartilhava a guarda. E a história dos dois não estava bem resolvida. Então, a cada esbarrão que os dois davam, os problemas, sentimentos, confusões sempre apareciam e se afloravam. Carlos estava bastante indeciso (todos os Carlos os são), mas também parecia que a escolha correta sempre esteve ali. Novamente, muito bem feito, apesar de mais óbvio.
Já o terceiro Carlos, o Evandro Mesquita, é um show à parte. De longe o mais maluco, mais politicamente incorreto, e mais divertido. Completamente imerso numa relação problemática com a própria mãe, que poderia ter tipo uma coautoria de Freud no roteiro, esse Carlos é, ao mesmo tempo, o mais perdido e o mais reflexivo em seus problemas de relacionamento. Tanto que vai num tipo de Tinder presencial da época tentar achar seu par perfeito. Sem querer acha Júlia e tem uma excelente relação com ela.
Surpreendentemente, mais uma vez – e grandes spoilers aqui, caso você seja maluco de ler isso tudo sem ter visto o filme primeiro – o terceiro Carlos é o que quebra todas as barreiras que eles mesmos criaram para si próprios e fica com Júlia no final. O Carlos imaturo, que mora com a mãe, que não tem grandes perspectivas de vida, mas mesmo assim muita autoestima. Esse é o Carlos que percebe que as diferenças não importam, após um excelente discurso de sua mãe sobre frescobol.

Às vezes tudo que precisamos é o choque de saber que nossa mãe está namorando um idoso que joga frescobol.
Links espertos:
Onde assistir Amores Possíveis? Alugando na Claro TV Mais (R$9,90) ou nessa qualidade deplorável no YouTube.
Compre o DVD de Amores Possíveis.
Leia outra crítica sobre um filme de Sessão da Tarde (da maneira mais carinhosa possível) aqui no site.
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Michael Renzetti é o criador do Perigoso Divino Maravilhoso. Um pseudo-escritor e comentarista do cinema brasileiro, com formação crítica construída em cursos realizados na Escola Livre de Cinema, Cinética, CineCuti, entre outros, onde aprofundou seus estudos em teoria, análise fílmica e pensamento cinematográfico. Penetra em importantes festivais do país — como o CineBH, a Mostra de Tiradentes, a CineOP e o Olhar de Cinema — desenvolveu um olhar atento ao audiovisual nacional, articulando repertório acadêmico e vivência de circuito.


Comentários
Uma resposta para “Crítica: Amores Possíveis (2001)”
[…] Leia uma crítica sobre outro filme dos anos 2000. […]