A Queda (1978)

Crítica: A Queda (1978)

Resumo:

A Queda é um filme co-escrito e co-dirigido por Ruy Guerra, do fantástico Os Fuzis, e Nelson Xavier, grande ator de filmes e novelas, que acompanha os desdobramentos de um acidente numa fábrica, que resulta na morte de um operário.

A Queda é uma continuação de Os Fuzis!

A coisa que me surpreendeu de cara no filme é que, em seu letreiro inicial, tem um agradecimento às imagens cedidas do filme Os Fuzis. Achei curioso. Não entendi como funcionaria. Se seria um filme que os personagens assistiriam… 

E, para minha surpresa, Os Fuzis era o passado desses personagens. O rapaz que morreu na obra era um dos soldados. O encarregado da obra, personagem interpretado por Nelson Xavier, era o outro soldado. Esse era o presente daqueles personagens do filme de 1964. A Queda pode ser considerada uma sequência de Os Fuzis. 

Até daí nasce um dos primeiros grandes simbolismos do filme, que é lotado de pararelos, Eiseinstein ficaria orgulhoso. Os Fuzis foi lançado em 1964, início da ditadura (olha aí a situação do contexto se tornando importante novamente) e A Queda já foi feito em 1976, período em que o regime estava começando a se enfraquecer. Tanto que em 1978 foi aprovada a lei da anistia, que concedia “perdão” aos presos políticos do regime, já anunciando uma “queda” do regime. 

Karl Marx co-dirigiu A Queda? 

O filme faz muitas dessas conexões Einseinsteinianas – para quem não sabe, Eiseinstein era um cineasta e teórico russo que defendia a teoria da montagem, entre outros princípios. Para ele, a montagem era parte essencial da “dialética da forma cinematográfica”, que, sendo muito simplista aqui (leia o texto), se exprime pela construção de um princípio dramático pelo choque de uma montagem feita com enquadramentos independentes, ou opostos. 

Um exemplo clássico do seu filme A Greve é uma montagem de boi sendo degolado misturada ao Czar fuzilando trabalhadores. A mistura dessas duas cenas interdependentes cria um terceiro sentido. Nesse sistema, trabalhadores são como gado indo para o eterno abate. 

Em A Queda, uma das primeiras cenas é um boi sendo abatido por trabalhadores e os “patrões” tomando seu sangue. E logo depois temos o evento que faz o filme acontecer: um trabalhador se acidenta e morre no meio da fábrica. Mais didático (ou dialético) e referencial impossível. 

Além disso, a primeira cena é de um prédio sendo implodido. O fim de um regime? A construção de um novo? O fim da ditadura e o início da “democracia”? Possivelmente. E aí acho que A Queda é impressionante como leitura de Brasil (como todo filme bom brasileiro é – um absurdo), porque a construção da “democracia” se dá em cima da base da ditadura, feita por muitas das mesmas pessoas, de cima para baixo, sem alterações profundas. 

É interessante pensar que A Queda é um filme sobre uma construtora, sobre o processo de “concretar” rápido uma obra, e todas as contradições que aparecem no processo. Construir um prédio, construir um país. Não é por acaso. 

Sabe mais o que se chama Construção?

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Incrível.

A Queda e Os Fuzis

Também não é por acaso a conexão com o filme Os Fuzis. Não vou dar muitos spoilers aqui, até mesmo porque faz tempo que não vejo esse filme, mas basicamente a história é que soldados são chamados a uma cidade do interior do nordeste para “proteger” armazéns de alimentos contra a população faminta. E daí são construídas diversas tensões sociais complexas, e ótimas reflexões. 

A Queda utiliza os mesmos personagens centrais de Os Fuzis para mostrar a vida “pós” militar de cada um deles, começando pela morte de José. A conexão do exército é o que faz Mário, encarregado da obra, se incomodar com a maneira como a situação está sendo tratada pela construtora. Assim, começam suas contradições. 

Ele quer ajudar a esposa do amigo falecido, mas também precisa ajudar seu sogro (empreiteiro) e a empresa. Ele quer falar contra os problemas de segurança com a imprensa, mas precisa manter seu cargo. Está numa situação difícil. E as contradições vão crescendo até ele ter que escolher um lado. 

Só isso (tudo) já é interessante por si só. Um personagem preso entre diferentes “lealdades” – família, companheiros de trabalho, patrão, companheiros de farda – navegando entre a possibilidade de ganhar dinheiro, ter uma vida mais confortável, e seus princípios, a justiça pela família do falecido, e pelos trabalhadores. Muitos conceitos da luta de classes colocados em tela. 

O que significa os mesmos personagens nas duas obras?

Todos esses conceitos, os trabalhadores, a morte, a luta de classes, poderiam ter sido feitos sem a conexão entre os dois filmes. Não precisavam ser os mesmos personagens. O que torna a experiência mais interessante é que, ao conectar os dois filmes, Ruy Guerra faz outro paralelo, onde as pessoas que participaram e mantiveram a ditadura, agora são atores ativos na reconstrução do país. 

Mário, o soldado que mantinha a ordem, agora é braço direito do empreiteiro da obra. Seu companheiro de farda, com menos sorte, agora é o trabalhador que morre em serviço, serviço este que aceita por precisar de dinheiro para sobreviver, tal qual as pessoas das quais protegia as mercadorias em Os Fuzis. 

E é interessante não apenas pelas conexões, mas também por algumas situações bem específicas que mostram alguns acenos importantes para construções de nossa sociedade  como um todo. O personagem Mário é o ‘herói” da história. Nós seguimos sua história, suas reações, seu desenvolvimento. Mas ele é um poço de contradições. Ele é um daqueles “trabalhadores hipotéticos” que está constantemente em alta nas tretas da internet brasileira. Machista, odeia sua esposa, a trata mal, faz coisas impensáveis, mas quer justiça para a esposa do amigo, quer ajudar os trabalhadores a comer por um preço mais barato, mas também participa dos trambiques de seu sogro. É um trabalhador que a “lacração” (com todo respeito) não vai gostar (risos).

Militar sendo militar

Mas tem uma cena específica que me deu um estalo de “Ruy Guerra tem um plano”. Quando Mário entende que a empresa passou a mulher do amigo morto pra trás e não vai dar o dinheiro a que ela tem direito, ele resolve fazer o que sabe tão bem, que é pegar um revólver e ameaçar um engravatado qualquer a admitir que fizeram sacanagem. Comportamento típico de um militar. Isso deve ter sido proposital.

Conectei as situações lembrando do que Ivan Mizanzuk apresentou no Projeto Humanos, no icônico Caso Evandro, sobre o menino desaparecido e tudo que aconteceu ali. Não vou dar muitos spoilers, mas saiba que tem resquícios de ditadura ali. Ouça!

Enfim… ficou claro que A Queda é um filmaço, que fala muito de Brasil (novamente), da época em que estava (novamente), mas com uma visão clara de futuro, o que é diferenciado, e com uma visão clara marxista, dialética, eisensteiniana, de cinema, com todo  o poder da montagem trazida para o contexto do trabalhador brasileiro. Coisa linda.

Links espertos:

Assista ao filme no PerigoFlix, streaming que eu fiz no Claude, só com os filmes sobre os quais escrevo aqui.

Assista ao filme no YouTube também, caso você seja de YouTube.

Textos relacionados: