Brasil Ano 2000

Crítica: Brasil Ano 2000 (1969)

Resumo:

Brasil Ano 2000 é um filme brasileiro de ficção científica, feito em 1969, que se passa nos anos 2000 “pós-apocalípticos”, depois da destruição de diversos países na terceira guerra mundial. Acompanhamos uma família que chega na cidade de “Me esqueci” e são contratados para serem “índios” em um centro de educação e estarem presentes na visita de um general para lançar um foguete.

Críticas, mais críticas e mais críticas

Brasil Ano 2000 é mais um daqueles filmes brasileiros que não apenas lêem mas criticam tão bem o Brasil da época em que estão inseridos. Sempre bem humorados, falando de tudo e mais um pouco, são ótimas expressões de denúncias sobre os mais diversos assuntos, como subdesenvolvimento, corrupção, fome, xenofobia… escolha seu problema social que ele está lá. E isso não é uma crítica. 

Bem, talvez seja um pouco uma crítica no sentido de que toda vez que você tem um filme brasileiro bem premiado (fui assistir para fazer um texto sobre filmes brasileiros premiados em Festivais de Cinema internacionais – esse filme ganhou o prêmio do juri no festival de Berlim), bem falado, e vai assistir, tá lá uma crítica social complexa. 

E não é toda hora que estamos a fim de nos conectarmos a uma crítica social complexa, a ter que pensar todo o país, não é mesmo? E olha que eu adoro pensar o país. Só que, de vez em quando, o filme podia só ser bom e pronto. Eu sei que não existe filme feito no vácuo, que todo filme tem uma ideologia, um posicionamento, e não falar nada é apoiar o status quo, mas devo dizer que de vez em quando eu gostaria de só aproveitar uma boa história tranquilamente.

Mas não foi o caso. E o filme é ótimo. Super divertido, engraçado, com uma história completamente maluca, que serve de pano de fundo para… discutir o Brasil.

O contexto de Brasil anos 1964-69 para Brasil Ano 2000

Antes de continuar, acho bom colocar aqui no texto a máscara do contexto. Isso é imprescindível para entender e gostar mais desse tipo de filme, porque, pra mim, eles funcionam bem melhor quando você entende por que foram feitos. Por toda essa questão que disse acima de ser um filme que pensa o Brasil de seu tempo. 

Esses filmes, mais do que o normal, não são realmente feitos no vácuo. E o momento histórico é essencial.

Como você já deve ter adivinhado, entre 1964 e 1969 (data de lançamento do filme) passávamos pelo período da ditadura. E, em 1968, foi baixado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), o instrumento mais repressivo da ditadura militar brasileira.

Além disso, o Cinema Novo entrava em uma nova fase, mais colorida, popular, irônica, cheia de metáforas, influenciada pelo Tropicalismo. O intuito também era evitar a censura e poder continuar criticando a ditadura. Então os filmes deixavam de ser crus, diretos, incisivos, e passavam a tratar dos assuntos de forma mais dissimulada. 

Tudo que Brasil Ano 2000 tem a dizer

Daí chegamos em Brasil Ano 2000. Um filme pós-apocalíptico, tropicalista, colorido, musical, com uma história sem pé nem cabeça, que na verdade vem pra falar tudo e mais um pouco sobre o Brasil no meio da ditadura. 

A ideia inicial, de uma família sair “do nada” e chegar a uma nova cidade é mais Brasil impossível. Mas normalmente é ao contrário. A família sai do Norte ou Nordeste pra tentar a sorte no Sudeste. E a família estava saindo de Brasília com a ideia de ir para o Norte. Pode ter duas coisas aí. Uma ideia de volta às origens, pois a mãe diz que gostaria de plantar e viver de subsistência, mas também outra situação. 

Nessa época, o exército (na vida real) estava planejando sua “Operação Amazônia”, que visava “integrar” e “desenvolver” a região Norte. Isso culminou na criação da Transamazônica e em diversos problemas para nossa população indígena. E aí, meus amigos, temos bilhões de filmes falando sobre (sugiro assistir Iracema – Uma Transa Amazônica e Bye Bye Brasil). 

Então, essa passagem pode se tratar da família entendendo que ali estaria o suposto “desenvolvimento” do país. Que era para o Norte que deveriam ir. Mas, por ironia do destino (na verdade, do roteiro) eles vão parar na cidade de Me Esqueci e acabam conhecendo um integrante do exército que tinha como trabalho educar índios. Mas ele não tinha índios para educar. 

A leitura da Transamazônica X cultura de subsistência começa a fazer sentido porque a família está sem nada, têm apenas uma belíssima cristaleira (ótimo símbolo do que mães e avós acham chique, herança, ser “desenvolvido”) e acabam por aceitar fingirem ser índios para a chegada de um general à cidade. 

Assim, tem trabalho e comida, além de um teto. E a mãe, que gostaria tanto de viver de subsistência, desiste rapidamente do sonho para ter algo, que também tem um simbolismo forte com toda a situação do trabalhador que vende sua força de trabalho por valores baixos para não morrer. 

Dentro do Centro de Educação dos Índios tudo começa a acontecer com nossos heróis e daí vem o desenvolvimento de diversas narrativas. A mais interessante, que leva a história para lugares incríveis, é a aparição do jornalista. 

O jornalista em Brasil Ano 2000

Ele nos é apresentado dentro da igreja, que também é um hospital, e também o parlamento e também a igreja, numa crítica gostosíssima à não separação das nossas instituições, à confusão que são os poderes, a religião, a saúde, tudo que permeia nosso país (até hoje). 

O jornalista é extremamente crítico, cínico, adora uma bagunça e tem interesse em investigar tudo. Isso faz com que ele descubra rapidamente a farsa da família se fingindo de índios. E também começa um romance com a filha da família, em mais simbolismos aí quando ela vê nele a única chance de sair dali e ter algum tipo de vida (o que, claramente, não iria acontecer). 

Esse personagem promove muitas discussões interessantes. Ele está em todo lugar e provoca todo mundo. Um bom momento é quando ele vai para os “porões” da cidade, onde fica a biblioteca, e discute com um historiador, que está preso lá, quem seria mais importante no momento, numa clara alusão à ditadura. 

Ele também é importante no fim, quando se senta à mesa do general, junto com o responsável pelo centro de educação dos índios, e, mesmo sendo um crítico ferrenho de tudo e todos, entrega para eles todas as provas da farsa da família e desiste de publicar algo sobre o assunto.

Esse momento, inclusive, é muito bom como outro aceno sobre como as crises terminam no Brasil. Todos sentam à mesa e são promovidos, recompensados, mesmo tendo causado todos os problemas. O responsável pelo centro de educação ganha um cargo maior, a mãe da família vira a nova responsável pelo centro e o filho vira astronauta. 

Além disso, o jornalista é o grande oponente do filho da família na batalha final de talheres gigantes (sim, você leu certo), por uma suposta honra da irmã. Grandes momentos. 

Pra completar isso tudo, a música é muito importante ao filme, e dá a ela esse caráter de Tropicalismo, de ironia e bagunça, sendo feita por ninguém mais ninguém menos que Gilberto Gil, que havia feito também a de Jubiabá. Olhem só, duas trilhas consecutivas de nosso grande artista nos filmes que acompanhamos por aqui. 

Enfim, Brasil Ano 2000 é um ótimo filme-critica, irreverente, divertido, com uma leitura de Brasil impressionante, com uma visão de presente e futuro certeira, que enriquece muito nossa filmografia. Vale muito a pena. 

Links interessantes:

Assista o filme gratuitamente no YouTube.

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