Atravessa minha carne (2025)

Atravessa Minha Carne (2025)

Atravessa minha carne é um filme que pode ser considerado divisivo, não apenas para o público, porque já seria divisivo o suficiente na questão de ser um filme documentário muito levado para o lado da simbologia e da sensibilidade, sobre dança, mas também é um filme divisivo pela questão de parecer dois filmes diferentes. Um da metade para frente e outro da metade para trás. 

A primeira metade é um filme fraco, devo dizer isso de forma bem franca. Porque as conexões são fajutas, não tem muito sentido, as imagens e o propósito de cada uma delas não fica claro para mim. Então eu não consigo defender esse filme como uma proposição de documentário, nem de um diário da dança, da arte, de nada. Para mim parece apenas uma construção de imagens de beleza, de arte pela arte, de uma proposição bem experimental e iniciante do que seria um filme sobre dança.

E eu digo que é divisivo porque de uma hora para outra isso tudo muda, as coisas se quebram, o propósito do filme se mostra. Eu não sei se, por eles estarem mais experientes – porque antes de começar o filme eles explicaram um pouco sobre o processo, que esse filme demorou muito tempo para ser feito, que ficaram mais de dez anos com ele parado, que gastou muito dinheiro do bolso dos produtores, que eles não conseguiram participar de editais, e o filme se construiu de forma autônoma. Isso é bem legal, é uma super força ele ter se realizado pela vontade e tentativa dos autores. 

Mas, ao mesmo tempo, isso me parece mostrar um pouco da falta de experiência, ou falta de entendimento do propósito da criação de um filme. Pode ser que eu esteja pensando isso por ter essa informação de que eles demoraram muito para fazer o filme, porque isso entra no subconsciente e pode explicar de forma fácil a minha estranheza, essa minha dificuldade de compreender e gostar do filme a princípio. Mas, a quebra que acontece, me parece muito forte e real para descartar essa possibilidade, porque depois dessa quebra, depois desse acontecimento, o filme é muito mais coeso, potente, e interessante como um todo.

Vou dizer o que acontece, te dar um pouco de contexto, porque estou pensando aqui agora que ainda não falei nada. Nem sobre o que é o filme, nem sobre o que é essa quebra. 

Em primeiro lugar, Atravessa minha carne é um filme sobre ensaios de uma trupe para uma apresentação de dança. Ou seja, um documentário sobre o processo de colocar no ar um espetáculo. E o que acontece é simplesmente uma apresentação dessa dessa dança. No meio do filme. E aí ele sai do preto e branco, porque, mais uma vez, e talvez podemos entender aí toda uma questão de clichês e inexperiências, é um filme preto e branco, sem necessidade de ser preto e branco. E essa quebra para o colorido, e para essa apresentação que termina com um dos personagens no chão, cansado, e todo marcado pela dança, me deu tudo que eu necessitava do filme e ainda não tinha visto. O porquê disso tudo. 

E a partir daí eu estava vendido. E o filme começou de verdade para mim, porque logo depois dessa apresentação eles começam a mostrar ensaios, com diálogos, com discussões sobre o espetáculo, e com um ensaio bem inicial da própria apresentação que acabou de ocorrer. Então isso criou em mim o entendimento dos porquês, do porquê da dança, do porquê dos ensaios, do porquê da documentação desses ensaios e dessa apresentação. Tudo ficou potente. 

Então o filme começa a se conectar, criar toda essa potência nos ensaios, nas perspectivas dos personagens, nos seus diálogos, e isso desemboca na apresentação final. E é uma senhora apresentação final, com todos os elementos que a gente viu dessa metade para frente, com toda essa força resumida em um momento icônico, que foi criado a partir da expectativa dessa apresentação da metade para frente e dos ensaios, e tudo fica muito lindo de ver e acompanhar. 

Isso me levou a pensar até que o filme não deveria ser um longa-metragem, porque essa primeira metade me pareceu longa e sem propósito, e a segunda metade me pareceu tão perfeita e potente, que eu não sinto que precisava de uma outra primeira metade, mesmo que fosse mais bem feita, por assim dizer. Acho que o que foi construído da metade para frente é perfeito para encapsular o que eles queriam passar, então sinto que esse filme é um dos que sofrem da maldição de ter um escopo pequeno demais para as ambições de um longa, e talvez tenha que ser um curta ou média metragem, que, mesmo com menos apelo, é o local em que ele precisa estar.

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