Papaya

Crítica: Papaya (2025)

Resumo

Papaya (2025) é um longa de animação dirigido por Priscilla Kellen que acompanha a jornada de uma pequena semente de mamão que sonha em voar. O filme estreou no Festival do Rio e teve estreia internacional no Festival de Berlim.

Filme para crianças?

E lá vamos nós para o primeiro filme visto na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a animação infantil Papaya. Como de costume, a primeira manhã do festival é dedicada a um filme para crianças, em meio a vários painéis e conversas com diretores, curadores e tudo mais.

Mas eu queria ver filme, então fui para a Cine-Tenda acompanhar uma obra que talvez não fosse muito direcionada para minha faixa etária (apenas alguns pouquíssimos anos mais velho que uma criança ok, não acreditem em boatos contrários). E isso fez diferença na minha visão do filme, logicamente, pois, mesmo com todas as luzes, cores, e belos desenhos, o início do filme me entediou bastante.

A semente ganha pernas

Caso você ainda não tenha compreendido pelo título, Papaya é um filme sobre uma semente de mamão que cai na terra, mas, a princípio, renega seu destino de criar raízes e se transformar numa árvore, pelo belo sonho de voar. Mas essa primeira parte demorou tanto que cheguei a repensar minhas escolhas. Também quis voar dali. Brincadeiras à parte, Papaya melhora rapidamente. Quando a semente ganha pernas (suas primeiras raízes) o filme também ganha e avança bem.

Cena de Papaya (2025)

Não vou dizer que é uma das histórias mais inovadoras do cinema, mas é bem divertido acompanhar essa semente entendendo seu lugar (e não lugar) no mundo, até o clímax do filme, que, devo dizer, é bem surpreendente. Até chegar lá acontece tudo que você espera, a semente descobre o mundo, sua floresta, começa a entender como as coisas funcionam, e é levada para locais desconhecidos. A clássica jornada de uma semente heroína. Isso descamba até mesmo numa revolução da fauna e flora contra o agronegócio, coisa que nós gostamos muito. Mas tenho uma grande preocupação que coloca esse fim surpreendente e toda a revolução em xeque.

E vamos de spoilers, então, se você não quiser saber como Papaya termina (ou não termina) não leia a partir daqui.

Dissecando o fim de Papaya

No fim, Papaya foge da fábrica do agronegócio e cai num esgoto. E nesse esgoto a semente é exposta a uma viagem de agrotóxicos, tal qual uma rave, uma boate muito liberal, e acaba se perdendo um pouco no que é ou não a realidade. Podemos dizer que Papaya sofre uma bad trip do agronegócio.

Quando a semente acorda e consegue se mover, ela está nas últimas, precisando de água, e enfrenta o asfalto quente, se esforçando para sobreviver. E daí vem o momento mais belo e menos crível de toda a animação.

Papaya finalmente aceita seu destino de semente e cria raízes, no meio da estrada, e consegue se salvar pegando água do solo, finalmente se transformando em árvore. E com o “enraizamento”, Papaya consegue contar de suas aventuras para toda a flora e fauna, pois estão todos conectados.

E, ao “falar” sobre a situação de seus companheiros na fábrica, consegue provocar uma revolução! Passarinhos invadem o local, destroem tudo e salvam sementes, árvores e tudo mais que conseguem encontrar. Maravilhoso. 

Difícil acreditar em Papaya

Mas o problema é o que vem depois. Ao crescer, Papaya evolui do estágio de árvore e se transforma em um híbrido semente/árvore/libélula/borboleta, e consegue sair voando, seu grande sonho. E na clássica jornada do herói, e em jogos metroidvania, Papaya passa, transformada, por todos os lugares que visitou anteriormente. E por que isso é um problema? Porque não é factível. Não é real.

Até aquele momento eu acreditei em tudo. Na força de vontade de uma semente, em seu caminhar, na sua sede por revolução. Mas o filme não conseguiu me vender a transformação, porque, mesmo que de forma lúdica, tudo que me foi apresentado anteriormente foi pautado na realidade. É uma semente que anda? Ah, mas é porque transformou suas raízes em braços e pernas. Ficou doidona? Ah, mas é de agrotóxico jogado por um inescrupuloso dono de plantação. Tudo fazia sentido. Agora, uma semente virar uma borboleta? Impossível. Até para o mais crente dos espectadores.

O sentido final

E como podemos explicar tudo que se sucedeu? O filme é sem sentido? Minha resposta é não! Tem um sentido aí.

Lembrem-se dos agrotóxicos. Papaya nunca saiu da sarjeta. Papaya nunca se recuperou da bad trip. Mas a bad trip se transformou numa good trip, e Papaya sonhou. Imaginou a sobrevivência, imaginou a revolução, imaginou a transformação, a liberdade, o ato de voar. Infelizmente, é a única explicação.

Todo o ato final do filme parte apenas da imaginação febril de uma semente à beira da morte jogada na sarjeta da cidade, após doses cavalares de alucinógenos. Eu gostaria de acreditar que Papaya venceu, mas me parece improvável pela falta de verossimilhança da transformação em um híbrido semente/árvore/libélula/borboleta. Fica aí até um ensinamento. Temos que sonhar, mas nossos sonhos precisam ser pautados na realidade. E Papaya voou longe demais.

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Comentários

Uma resposta para “Crítica: Papaya (2025)”

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