O Agente Secreto deveria ter vencido o Oscar e eu posso provar

O Agente Secreto deveria ter vencido o Oscar de melhor filme internacional. E o Oscar de melhor filme, ponto final. Ele é o melhor filme do ano*** (colocando todos os asteriscos possíveis, pois deve ter um bilhão de filmes aí que ninguém viu ainda que sejam melhores – sempre tem). 

“Ah, isso é você sendo bairrista”. Não, não é. Vou te mostrar de forma prática e contundente que O Agente Secreto é o melhor filme entre os dez indicados.

Ja tirando do caminho o óbvio: Valor Sentimental é um filmaço. O segundo melhor entre os dez concorrentes ao prêmio de melhor filme, só ficando atrás d’O Agente Secreto, na minha humilde opinião. E Uma Batalha Após A Outra é divertido, muito bem feito, com atuações fantásticas. Tá bem, eu sei. Mas nós não precisamos ser humildes. O Agente Secreto é melhor.

Valor Sentimental é um bom vice

Vamos começar por Valor Sentimental, nosso grande rival. E tomem cuidado com os spoilers. 

Realmente, Valor Sentimental é um filme incrível. A história, por si só, já é muito boa. Drama familiar de alta complexidade, suicídios e tentativas de suicídio, arte, filme, teatro, pai terrível, mãe morta, filhas traumatizadas. Bom demais. Tudo que a gente gosta. 

Pra completar, tudo é feito de uma maneira excelente. A casa sendo um personagem central da história. Os cômodos, as paredes, as portas, o banquinho. Tudo conta, sem palavras, parte desse drama. Tudo é importante, opressor, simbólico. 

Eu vou marcar sua vida de forma confusa para sempre

E a arte? A metalinguagem? Esse filme entrega tudo que cinéfilo gosta. O pai escreve um roteiro de filme pra sua mãe, mistura histórias, mas na verdade está falando para (e com) a filha, pra mostrar que gosta dela e se preocupa? Sem saber se expressar? Quase morrendo no processo? Tudo feito da pior forma possível? E da forma mais humana possível? Arte, catarse, drama.

E a resolução de problemas? O pai tentando substituir a filha por uma estadunidense ruim, em outro simbolismo sobre substituições, adaptações, concessões, streaming e tudo mais? Excelente. Mim dê isso tudo, papai. 

E mesmo entendendo isso tudo, eu não acho que Valor Sentimental seja perfeito como O Agente Secreto. É mais simples, mais fechado em si mesmo, não tem a grandiosidade de O Agente Secreto, que faz praticamente todas essas mesmas coisas, mas recriando todo um mundo, um Brasil, de época, com mais personagens, mais personalidade, mais cor, discutindo muito mais problemas e situações. Enfim, é péssimo ficar comparando grandes filmes, mas para ganhar a discussão nós estamos aqui. O Agente Secreto é melhor. Mas Valor Sentimental é um bom vice.

Concorrentes fracos 

Agora, as comparações com os terríveis, medianos e apenas bons filmes estadunidenses dão até dó. Frankenstein e F1 eu nem vou gastar mais de uma frase pois são apenas filmes ruins. Apesar de que eu me diverti com F1. 

Bugonia é bem atuado, divertido, mas bobo e com críticas sociais básicas, todo tuitero já fala disso diariamente.

Pecadores é parecido, mas muito bom. As críticas sociais também já foram super exploradas em tudo quanto é lugar. Mas já vem com uma metalinguagem, um terror, um vampiro, usa gênero cinematográfico pra falar muita coisa. Bom demais. E com ótimas atuações. Mas não chega perto. 

Marty Supreme é cinema cinema, cinema diversão. A história não serve pra nada, é um quadro em branco para Josh Safdie fazer sua mágica de nos deixar ansiosos o tempo todo numa montanha russa de situações complexas, divertidas e terríveis. Mas é só mais um do mesmo tipo de filme desses rapazes. E Jóias Brutas já nos deu isso de forma muito melhor.

O corre-corre da cidade grande
Tanta gente passa, estou só

Concorrentes bons, com sentimento

Aí agora vamos para os filmes que te fazem sentir sentimentos. 

Sonhos de Trem. Bom. Bonito. Barato (mentira). É um filme que consegue nos passar bastante tristeza, primeiro dando um senso familiar gostoso, um personagem marcante e carismático, pra puxar nosso tapete e acabar com tudo, trazendo uma tragédia absurda. Tudo muito bonito e bem feito, mas um pouco arrastado, num formato bem engessado, com uma narração sem necessidade, que me parece ter sido colocada ali mais por medo do público não compreender do que qualquer outra coisa. 

Hamnet. Foda. Icônico. Ou como Juliano Floss, o Marino Seno, diria, Iconic. Ele te dá muita coisa que deixa cinéfilo feliz. Drama bonito, refação e embelezamento da história real com a magia do cinema e a famosa metalinguagem. A arte sendo redentora do luto. Bonito. Mas não deixa de ser uma produção básica estadunidense/britânica de época, parecida com outras mil que já vimos antes, com um toquinho a mais de profundidade. E boas atuações. 

EU NÃO TÔ CHORANDO É VOCÊ QUE TÁ CHORANDO

O grande vencedor, grandiosamente mediano

Agora vamos ao outro rival. O vencedor geral. Uma Batalha Após a Outra. Filme bom, viu. Divertido, com ótimas atuações, e muita coisa confusa sendo falada ali. Críticas superadas, críticas novas, críticas mal feitas. Críticas, críticas, críticas. E armas. E bombas. E perseguições. Tem tudo que o público gosta. Tem tudo que eu gosto também. Por isso ganhou. É o filme médio. Não atrapalha ninguém porque fala mal de todo mundo, mas não é profundo o suficiente para ter uma grande voz e falar algo verdadeiro. Mas não tem problema, um filme não precisa ter uma voz pra merecer ganhar o Oscar.

E ser mediano ajuda muito, pois – caso você não saiba -, a votação final do Oscar, além de toda politicagem, publicidade, barulho da sociedade, é feita a partir de uma média. Todos os dez filmes são colocados numa ordem de um a dez, do que mais gostaram para o que menos gostaram. E filmes diferentes, polarizantes, de outros países, complexos, tendem a ficar mais embaixo na maioria das listas. 

Não vai ter uma quantidade alta de pessoas colocando um filme brasileiro como o primeiro. Não vão nem assistir. É muito mais fácil pra vários dos votantes colocar o filme americano do bom diretor americano com um bom ator americano. Médio em tudo. Ótimo pra academia. Vitorioso pra lista. 

Uma Batalha Após a Outra é um bom filme, mas bastante esquecível. Acho que não vai ser tão falado no futuro, a não ser para perguntarem “por que esse filme ganhou o Oscar?” daqui a dez anos. Como fazemos hoje com Crash, Green Book, O Artista, Shakespeare Apaixonado, O Discurso do Rei, entre outros…

O Leonardo DiCaprio vendo que vocês já esqueceram do filme dele

Ícone de um (dois) país (países)

O Agente Secreto, e também Valor Sentimental (vamos ser justos), claramente já são filmes icônicos de seus países, vão ser lembrados para sempre como parte do melhor que nossos cinemas podem oferecer. Estão há anos-luz desses filmes medíocres estadunidenses. Serão lembrados por gerações, vão ajudar a cultura cinematográfica de seus países, vão criar novos cineastas, novos apaixonados por cinemas nacionais.

É lógico que merecemos vencer. Quase sempre merecemos vencer. Tenho pra mim que, se um filme estrangeiro chega ali pra disputar o Oscar de melhor filme, ele deve ser o vencedor. Ele já passou por tanto, já chegou tão longe, teve um caminho tão complexo pra percorrer, que só uma obra-prima estadunidense poderia tirar o prêmio das mãos do filme estrangeiro. O que não foi o caso em 2026. Não teve obra-prima estadunidense. A obra-prima é O Agente Secreto. E ele deveria ter sido premiado.

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Comentários

Uma resposta para “O Agente Secreto deveria ter vencido o Oscar e eu posso provar”

  1. […] de escrever um texto de como O Agente Secreto deveria ter vencido o Oscar e gostei muito do exercício. Tanto que pensei agora em passar por TODA A HISTÓRIA DO CINEMA (nem […]