Resumo
O Filho de Mil Homens (2025) é um drama baseado num livro homônimo que conta a história de um pescador solitário e sua busca por um filho.
Lindo e surpreendente
Esse foi um filme bem surpreendente de assistir, porque como odeio spoiler e vou 100% cru pra tudo, e também tenho um conhecimento limitadíssimo de vida, não sabia do que se tratava, nem que tinha livro, nada. História inédita. E gostei muito.
Primeiramente, a fotografia é maravilhosa. O filme é muito lindo, bem construído, e tenta contar partes da história com seus frames , posicionamento de personagens e rimas visuais. É uma filmagem e montagem de quem sabe o que está fazendo, bem acima da média.
A história também é bem bonita, apesar de alguns elementos parecerem um pouco ultrapassados. Tem muitas conversas ali que o tuiteiro não para de ter há anos. A vila me pareceu um pouco parada no tempo. Literal e metaforicamente falando.
Uma vila perdida no tempo
A história me remeteu, talvez de uma forma um pouco Boss Baby das ideias, à história que estou lendo no momento, Mar Morto do Jorge Amado. Um pescador que quer ter um filho e faz pedidos para Iemanjá? Hum isso está me dando vibes de Mar Morto…
Mas, de forma não Boss Baby, vi que Valter Hugo Mãe é um grande fã de Jorge Amado sim, que nosso GOAT fez parte da sua infância. Então posso muito bem sentir vibes de Mar Morto em O Filho de Mil Homens (2025). E por que digo isso? Por que me parece uma história bem 1936, Jorge Amado das ideias, de escrever sobre os marginalizados numa pequena vila de pescadores.
O livro pode e deve ter feito isso de maneira melhor, mas no filme senti que estávamos discutindo temas desses personagens que há muito já entramos num consenso em sociedade (tirando os neo fascistas) que não são problemas mais. Solidão masculina, mulher não virgem, homem gay? Só nessa vilinha perdida no tempo é que eles tão sofrendo.
Mas é uma boa história, que se conecta muito bem através dos capítulos – que também é uma boa forma de dividir o filme e dar um ar maior de “fábula”.

Belíssimas construções
A cena no início, com a música Volta d’O Termo e a mulher achando Camilo assustado num cantinho e seu “vô” morto é belíssima, dá o tom para o restante do filme e vai se conectar lá na frente, quando somos apresentados à rotina do garoto antes de ser órfão.
A rima da música no início, nos introduzindo o problema, o mistério, com sua repetição, o disco engasgado, com o fim, em que descobrimos que era a música que lembrava o “vô” de sua esposa falecida, a médica que ficou com Camilo após a morte da mãe no parto. Bonito.
Toda a introdução de Crisóstomo, sua tristeza, melancolia, desejo por um filho, e a substituição de contato real por um boneco, também é excelente e nos dá mais pistas sobre os caminhos da trama. Suas “viagens” ouvindo a concha, sua conexão com o mar, seu pedido para Iemanjá, parece muito saído de contos de Jorge Amado e criam toda uma estética fantástica de fábula.
E então temos a fábula se resolvendo, o encontro entre Crisóstomo e Camilo, pai com necessidades de ser pai com filho com necessidades de ser criado. Mais uma história de Pinóquio a ser resolvida. Pensei “estou dentro”, mais uma história de desventuras de pessoas de mundos diferentes aprendendo a se amar. Sou fã.
Mas não. O Filho de Mil Homens (2025) escolhe outros caminhos. E é aí que não tira um dez.
Muita gente passando por muita coisa
Somos apresentados à história da mãe de Camilo. Muito boa por sinal. Estilo bem “WesAnderstístico” de direção, com imagens icônicas das fofoqueiras da vila, da rotina da mãe de Camilo e por tudo que ela teve que passar. Devo admitir que achei melodramático demais seu monólogo, única coisa que me incomodou no filme inteiro, mas tudo se resolve bem e temos uma boa história de origem de personagem.
A partir daí é que o filme dá um 180 e vai para caminhos confusos, com mais personagens, mais histórias, mais dramas, mais marginalizados, mais perdido no tempo e me perde um pouco. Não são más histórias, mas é tragédia conectada demais em duas horas.

Tem alguns belíssimos momentos, como o rapaz que precisa esconder sua sexualidade e seus desenhos se tornando reais. E a rima visual da mulher e a alça do seu vestido. Com o terrível jovem da experiência sexual prematura, ele tentava tirar o vestido pela alça e ela subia de volta. Com o rapaz que precisa esconder a sexualidade, na primeira superconexão do filme, pós casamento dos dois, ele tenta baixar a alça do vestido e ela não deixa. No fim, com Crisóstomo, ela finalmente abaixa a alça. Está com quem quer e a deixa confortável. Muito bom.
Mas a gente precisava das quatro histórias? E que todas elas se conectassem? E precisávamos saber de tudo com tantos detalhes? Até da última super conexão máxima que fecha tudo numa super conexão e exposição absurdas de que Crisóstomo era o filho da mãe assassinada pela população fascista por ser bissexual? Novamente, talvez o livro tenha feito melhor, mas achei coisa demais para um filme. Que não deixa de ser ótimo. Uma grata surpresa.
Links espertos
Onde assistir O Filho de Mil Homens (2025)? Na Netflix. É produção deles. Coisa boa.
Compre o livro que deu origem ao filme aqui.
Jogue meus jogos
Michael Renzetti é o criador do Perigoso Divino Maravilhoso. Um pseudo-escritor e comentarista do cinema brasileiro, com formação crítica construída em cursos realizados na Escola Livre de Cinema, Cinética, CineCuti, entre outros, onde aprofundou seus estudos em teoria, análise fílmica e pensamento cinematográfico. Penetra em importantes festivais do país — como o CineBH, a Mostra de Tiradentes, a CineOP e o Olhar de Cinema — desenvolveu um olhar atento ao audiovisual nacional, articulando repertório acadêmico e vivência de circuito.

