Outro filme divisivo na Mostra Tiradentes, como de costume. E desta vez foi divisivo entre minha esposa e eu. Ela achou terrível e eu gostei bastante. Mas isso tem uma explicação fácil. São dois movimentos possíveis. Perdoar os terríveis erros e cafonice premiando os detalhes de beleza e intenção ou descartar esses pequenos momentos em busca de mais construção e consistência. Todos estamos certos. Mas minha esposa está mais certa do que eu. Sempre.
É um filme bonito, com uma poesia própria, que peca por uma dramaticidade fora de tom e falta de estrutura. Talvez por ter sido construído como uma instalação, com atos bem separados e que também está sendo exposto como obra, ficou aquela estranheza, porque a história básica é bem linear. Uma cena após a outra, levando o enredo (pra ficar no tema do filme) pra frente. E, um movimento tão linear, pelo menos pra mim, pede mais conexão entre momentos.
Para contexto, a história de Uma Baleia Pode Ser Dilacerada Como uma Escola de Samba (2025) é simples. Uma escola de samba do Rio faliu, e seu dono precisa levar os “restos” de seus carros alegóricos para serem vendidos num ferro velho de Carnaval. Para tal, convoca seus últimos funcionários e um ajudante nesse desfile final rumo à falência. Uma boa ideia. Com ótimas intenções. E uma bela fotografia. Mas o formato instalação, com cenas bem separadas, teatrais, talvez não tenha sido a melhor escolha para as telonas.

Focado apenas em grandes momentos, o filme perde (e pede) respiro, pequenas histórias, quebras, leveza. Tudo parece forte demais o tempo todo. E isso deixa o filme muito teatral. Atrapalhou, pra mim, até mesmo as atuações. A melhor atriz dali, a porta bandeira, me pareceu a pior por estar, o tempo todo, ligada no 220 do drama. E esse drama todo não foi vendido pra mim. Eu não sofri tanto pelo relacionamento dos dois nem pelo fim da escola porque só tivemos momentos grandes de confrontos. Não tivemos a construção de pequenos sentimentos, pouco a pouco, com delicadeza, nos ligando aos personagens e à escola. Tudo é abrupto e forte. Por isso, não consegui me conectar aos personagens principais. E muito menos aos coadjuvantes, que, por mais interessantes que possam parecer, não tem momentos para que possamos conhecê-los melhor.
Refletindo sobre ter gostado do filme mesmo com esse problemão todo, cheguei à conclusão de que ele é um ótimo filme do Brasil dos anos 2010. Muitos filmes dessa época eram assim, cheios de falhas, mas com muita beleza e intenção. Então acho que fui acostumado a relevar todos os problemas por entender que era ali que nossos filmes estavam como produto. Era o máximo que podíamos fazer com os recursos que tínhamos. Mas agora, em pleno 2026, após (mas não por isso) duas indicações e uma vitória no Oscar, realmente talvez deva ter que mudar meu cérebro e esperar um pouco mais de nossas obras. De boas intenções e beleza, o cinema brasileiro (que não é um inferno) está cheio. Precisamos de mais.


Deixe um comentário