Férias Trocadas poderia ser considerado um filme brasileiro muito ruim, se você fosse mente fechada, elitista, e pensasse apenas na qualidade geral do cinema brasileiro, e também na qualidade geral do cinema mundial. Mas, nós dois sabemos que você não é assim, e, pensando em um cinema puro entretenimento, de cópia de fórmulas estadunidenses que funcionam bem, um cinema Rio de Janeiro, Paris Filmes, Globo Filmes, toco y me voy, podemos considerar Férias Trocadas um filme bem divertido e competente em diversos aspectos, alguns bem peculiares, inclusive.
Por exemplo, não acho os atores desse filme nem um pouco ruins. Talvez só o ator principal, que, em defesa do filme, e dele, eu juro que não sabia que era o mesmo ator fazendo os dois personagens. E talvez isso faça com que ele seja muito bom ator? Sério mesmo que achei que eles eram irmãos, um comediante conhecido e seu irmão menos conhecido, ou algum outro comediante parecido, que passou pelos mesmos lugares, um Jerry Seinfeld e Larry David da comédia brasileira. Normalmente eles formam duplas, algumas mais, outras menos geniais, mas… duplas. Então, nesse aspecto do doppelganger, o filme surpreendeu positivamente.

Para contextualizar um pouquinho, a história é basicamente sobre dois rapazes muito parecidos (que agora descobrimos serem o mesmo ator), que tem o mesmo nome – José Eduardo -, e saem do mesmo lugar (que ainda não entendi onde) em viagens familiares para Cartagena. Já começa aí uma boa situação, que achei interessante e foi um dos belos motivos que me fez querer ver esse filme – história que vou contar mais pra frente – , esse incrível clichê brasileiro de ir para Cartagena. Critica social foda? Gostamos.
Uma das famílias é “pobre” e a outra rica. Os pobres, na caricatura do filme, tem roupas coloridas que não combinam, gritam, são confusos, não tem tato social, parecem que nunca saíram em público antes, clássico desenho do cinema Rio de Janeiro, Paris Filmes, Globo Filmes, toco y me voy. E os ricos usam belas roupas brancas ou pretas, tem uma mulher legal, filho descolado e o pai horrível, preconceituoso – como na vida real (mentira, na vida real mãe e filho também são preconceituosos).

Chegando a Cartagena, a família rica fica para trás, pois suas malas demoram a chegar (ótimo truque para levar o enredo pra frente) e a família pobre vê o nome do pai numa plaquinha, levantada por um chofer de limousine. Pensam que é parte da rifa que ganharam e vão embora com o rapaz. Ah, esqueci de falar. Os pobres vão para Cartagena porque ganharam a viagem numa rifa, claro, o único jeito Paris Filmes de viajarem. E, com esse belíssimo cliché, eles são levados para as férias dos ricos, que, por sua vez, também são pegos no aeroporto por uma pessoa com uma plaquinha e o nome José Eduardo. Mas, por ser da paz, descolado, e provavelmente maconheiro, o homem chega atrasado, depois que a família pobre vai embora, e encontra apenas os ricos, com o mesmo nome, para levá-los de kombi para as férias dos pobres. Pronto. Férias Trocadas.
Na verdade, as férias dos pobres, o local onde eles iriam ficar, não é nem pobre, e aí tem outra boa crítica social foda do filme. É apenas uma pousada ecológica, que gosta de prezar pelo meio ambiente, e quer que você seja um com a natureza, faça atividades tranquilas, relaxantes, te ensina a pescar, dormir na mata, ficar bem na frente da praia e só pede para você limpar as coisas. Um conceito bem ok na verdade, super em alta. Eu não iria, pois varrer casa nas férias e dormir numa oca não é pra mim, mas entendo o encanto. Olha que coisa bonita:

E aí começam as altas confusões, pois as duas famílias terão que lidar com esse problemão que é estarem em férias trocadas, um numa pousada ecológica, tendo que limpar banheiro e outro recebendo massagens num hotel cinco estrelas. Coisa boa. Esse é o verdadeiro cinema. E você com preconceito bobo.
A única coisa que eu não gostei tanto é realmente do personagem principal, porque ele não atua tão bem (mesmo me enganando na questão do doppelganger), tem algumas frases mal escritas, não entrega tanto em seus diálogos, principalmente como o rapaz rico, mas o restante do elenco é muito bom, bem competente. A Carol Castro está aí super bem como uma musa desses filmes terríveis, musa Paris Filmes, Globo Filmes, toco y me voy, musa das Moneychanchadas, termo desse belo artigo aqui da cinética, que fala sobre todo esse cinema de ascensão social e suas peculiaridades. Ela faz muito bem uma esposa cansada do marido terrível que só pensa em dinheiro e odeia pobreza. Talvez seja um papel bem fácil, familiar.
Então acaba que sua personagem gosta muito da pousada, acha que é uma grande surpresa do marido, já que não gosta dessas coisas, e isso faz com o que o casamento em frangalhos dos dois melhore rapidamente. Ela pensa: “Ah, ele tem um outro lado, ele pensa em mim, ele quer me surpreender, ele ainda pensa no meu bem”, oh, coitada, alguém avisa pra ela. Mas acaba que isso também é um ótimo gancho para que ele aceite a farsa de ficar no lugar “errado” por um tempo.
E o mesmo acontece do outro lado. O casal pobre, que nunca teve contato com a sociedade, que é terrível e quer destruir o mundo, vê aquele luxo todo e pensa “estamos no paraíso”. Logicamente o marido também entende que não poderia estar no local correto, mas, percebendo a felicidade de sua esposa, que normalmente trabalha bastante e não consegue usufruir de mordomias assim, decide enganá-la e manter a farsa. Clássico.

E aí não vou mais te contar detalhes, você precisa ver por si só. A única coisa que vou dizer é que eles passam por ALTAS CONFUSÕES e que tudo dá certo no fim. Uma coisa que me intrigou bastante durante a história é que os dois filhos são, surpreendentemente, interessantes e ativos em partes do filme, totalmente dispensáveis e sumidos em outras, depois voltam com tudo, depois são deixados de lado. Uma festa de roteiro bipolar. Eles são vloggers de famílias rivais que se apaixonam, um Romeu e Julieta contemporâneo, que é deixado de lado por 80% das uma hora e trinta e sete de férias. Mas outra crítica social foda que advém disso é que o rapaz, por não ter conexão com o celular, se conecta com a natureza e aprende a pescar, só pra depois sumir novamente por uma hora de filme.
Agora que já tiramos o filme do caminho, vamos à história de como eu me vi assistindo a Férias Trocadas.
Estava eu tranquilo zapeando todas as atrocidades da semana em cartaz nos cinemas de shopping em Belo Horizonte pra ver se conseguia assistir alguma coisa, já que havia ganhado uns ingressos para o Cineart e estaria na rua no dia. E não tinha absolutamente nada de interessante, a não ser um filme de Larissa Manoela, chamado Traição Entre Amigas. Filme brasileiro. Resistência. Amei.
Pensei que deveria fazer toda uma sessão Larissa Manoela pra escrever aqui no blog. Ver toda essa filmografia ousada dela. E reparei que a maioria dos filmes vem de livros da Thalita Rebouças. O que me interessou ainda mais, pois seria uma antítese ao meu projeto de ler todos os livros do Jorge Amado e ver todos os filmes provenientes de suas histórias.
E para convencer minha esposa de embarcar nessa corajosa missão de assistir mais uma parceria Larissa Manoela Thalita Rebouças, fui obter mais informações sobre o filme. E me apareceu o nome do diretor no Google. Bruno Barreto. Então o circo se fechou. Está tudo conectado. Eu não estou maluco.

Bruno Barreto é um dos cineastas mais complexos da história do Brasil. O homem foi indicado ao Oscar por O Que É Isso Companheiro e ao mesmo tempo está por trás de Vovó Ninja. Já adaptou Jorge Amado e Nelson Rodrigues e agora filma Thalita Rebouças. O homem vai onde o povo está. E essa conexão com os filmes adaptados das histórias do Jorge Amado muito me interessava. Então fui ver o que mais além de Larissa Manoela o diretor estava colocando nas telonas. E aí me deparei com Férias Trocadas. Achei o filme mais maluco possível para Bruno Barreto fazer e fiquei fascinado. Que vitória poder estar vivo hoje para acompanhar isso tudo. Meu desejo agora é mergulhar na psique de Bruno Barreto: acabei de fazer a pesquisa “Bruno Barreto dirigindo filmes ruins” e volto a qualquer momento com mais informações. Isso é Férias Trocadas. Isso é Brasil 2025. Isso é Bruno Barreto. Isso é cinema nacional.
PS: O pessoal da internet foi bem demais e colocou o filme completo aqui no YouTube, caso lhe interesse.


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