Estou com uma grande obsessão por Jorge Amado nos últimos tempos. Ela veio forte por uma confluência de fatores recentes, mas eu já tinha uma história antiga com o escritor. Vou lhe contar tudo pois acho que é a maneira correta de fazer a resenha desse filme.
Começou na adolescência, quando li Os Capitães da Areia. Lembro até hoje, em casa, quando morava no bairro Palmares aqui em BH. Eu ficava muito fechado no meu quarto, lendo livros. Sou diferente das outras garotas, você não entenderia. Peguei uma edição antiga do livro, aquela de capa de couro, marrom, e fiquei muito impressionado com o que estava lendo. Hoje nem me lembro tanto da história, só sei que tinha uma casa na praia, algo do tipo, e as crianças, uma gangue, que ficava andando pela cidade… uma das crianças ia para uma casa “normal”, de família, e ficava um tempo lá… É até bom não lembrar mais nada pra não te dar spoiler. Mas me recordo do sentimento que ficou comigo, de que era uma história fantástica, muito diferente de tudo que já havia lido. Era uma escrita muito inteligente, mas real, popular, viva, completamente diferente das outras coisas com as quais havia tido contato anteriormente. Mas é porque eu também não tinha um grande conhecimento de literatura, e lia mais coisas estrangeiras. Até hoje não tenho, mas lembro de ter ficado muito impactado por esse rapaz que escrevia coisas lindas sobre crianças vivendo na rua.

E, muito tempo depois, tive outra conexão com Jorge Amado, quando comecei a assistir mais cinema brasileiro e prestar atenção nas nossas histórias. Quando vi Dona Flor e seus Dois Maridos, fiquei impressionado de ter contato com uma história incrível, muito profunda, com personagens complexos, que trata da sociedade real mesmo, com pessoas reais, do dia a dia, pessoas terríveis, e que uma pessoa terrível também pode ser charmosa e ter características positivas, com toda essa conexão com a sociedade, com nossa cultura. e uma cultura diferente, real, nada a ver com essa “cultura” que nos é passada em histórias mais “globais”… E o filme fala sobre Candomblé, uma cultura negra, baiana, de uma religiosidade “diferente” do que estava acostumado, e essa parte religiosa tinha toda uma construção especial e espetacular na história (que eu não vou falar muito sobre porque seria melhor escrever no texto sobre Dona Flor e Seus Dois Maridos, que já pode até estar escrito aqui quando você ler isso, você que está aí no futuro – mas é bem provável que não porque eu estou devendo milhões de outros textos).

Então comecei a entender que o Jorge Amado é esse cara que escreve histórias da cultura baiana, cultura brasileira de “verdade”, que exalta o povo, promove novas formas de olhar para a sociedade, falar sobre a sociedade, construir essa sociedade, e assim nasceu minha obsessão. Combinou com a minha esposa lendo o livro Tereza Batista Cansada de Guerra, e me falando que era muito bom, que tinha também todas essas características que descrevi acima, e pensei “nossa meu Deus vou ter que saber tudo sobre Jorge Amado” .
Fui atrás das histórias dele, descobri que ele era comunista, filiado ao Partido Comunista Brasileiro, foi deputado, super ativo politicamente (e de um lado político que me agradava) e foi fácil adorar essa pessoa que escrevia histórias muito brasileiras, e que muitas de suas histórias viraram filmes. Tudo bateu perfeitamente comigo. Gosto de brasilidade, e de cinema. E a obsessão aumentou. Pensei “Quer saber? Eu vou comprar todos os livros dele, ler tudo na ordem de lançamento e virar um grande leitor de Jorge Amado”. Então eu comecei a comprar essa nova edição linda dos livros dele.

Em paralelo, coincidentemente, fui para Salvador nas minhas férias e visitei a casa do Jorge Amado, a famosa Casa do Rio Vermelho. Se for para Salvador, não perca essa oportunidade. Lá eu descobri muito mais coisas sobre ele, que enriqueceu ainda mais as histórias, porque o Jorge Amado é um cara que viveu o Brasil inteiro. É impressionante o tanto que ele viveu todos os momentos históricos possíveis. É pegar um momento importante da história do Brasil que ele vai estar lá. Absurdo. Ele é 100% aquele meme “awesome people hanging out together”, porque todas as pessoas incríveis que viveram já passaram pela casa dele. E não só brasileiros. Pessoas do mundo inteiro. Escritores, cineastas, atores, políticos, músicos, todo tipo de gente diferente. E gente impressionante.

E por que disse isso tudo? Porque chegou o Cine OP 2025 (que também deveria ter um texto sobre aqui, mas não consegui fazer ainda), e fui prestigiar o belíssimo festival de cinema de Ouro Preto. Dia vai, dia vem, fui assistindo aos filmes que mais me interessavam por nome, ou diretor, ou horário que dava… e um belo dia apareceu um filme na praça chamado 3 Obás de Xangô. Isso pra mim não significava muita coisa, mas, por coincidência do destino, eu olhei a descrição do filme, porque (como já descrito aqui) eu normalmente não olho pra sinopse, não vejo trailer, nada, eu gosto de entrar para o filme sem saber do que se trata. Nesse dia eu olhei porque estava assistindo aos filmes exclusivamente do Centro de Convenções lá de Ouro Preto, e não tinha visto nenhum filme na praça, que é muito mais charmoso. Pra quem não sabe como funciona, o Cine OP normalmente tem filmes na praça central ali de Ouro Preto e outros no Centro de Convenções, que é grandão, com belas salas e auditórios, além de um espaço de convivência. Aí bati o olho no filme da praça e era, nada mais nada menos, que um documentário sobre Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé.
E esse filme só ratificou tudo que eu já sabia nessa história que contei acima sobre tudo que havia descoberto sobre o Jorge Amado, e de forma ainda mais incrível, porque é ele mesmo falando. São vários recortes dele, com Carybé, que foi outra pessoa que conheci quando fui para Salvador, suas pinturas, as esculturas, tudo que ele faz. E Dorival Caymmi, que era outro monstro sagrado da cultura brasileira que estava sempre na casa dele. Então é um filme que contou muito bem contado para mim toda essa história que eu já vinha construindo aos poucos em diversos lugares, nos livros, nos filmes, na visita a Casa do Rio Vermelho, e ao museu do Carybé. E o melhor, de uma forma muito leve, com as entrevistas deles, as brincadeiras terríveis de um com outro, uma ótima visão de como os três foram super responsáveis pela construção de uma cultura baiana de Salvador, e de serem representantes do Candomblé por defenderem e colocarem elementos da religião em suas obras, de serem promotores e defensores da religião em momentos que a perseguição era ainda mais forte que hoje em dia. Mostra como eles foram responsáveis por uma construção de uma brasilidade que via o brasileiro e toda sua cultura com muito carinho e amor. Todos nós deveríamos aprender mais com os três obás de xangô. E esse filme é uma ótima oportunidade pra isso. Vale ver e rever.


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