Minha infância finalmente foi retratada no cinema. O bairro era outro, mas com o mesmo estilo de ruas e casas, a tecnologia ainda estava alguns anos atrás – já que os personagens estão com doze anos em 91 e meus doze são em 98 – mas as experiências foram praticamente as mesmas. O tempo andava menos depressa naquela época.
Ao invés do primeiro walkman – mostrado no filme -, eu já tinha a versão preta, mais arredondada, e depois até aquela versão transparente, super tecnológica?? (era isso que eles pensavam?) que dava pra ver a parte de dentro, como aqueles Macs coloridos da Apple. A geladeira da minha vó também já era mais tecnológica. Mas o hobby incrível de fazer as fitas personalizadas com músicas de discos ou que tocavam na rádio era o mesmo, que hoje foi substituído pela playlist do spotify. No geral, as experiências eram bem parecidas.

Chamar os amigos pra brincar batendo no portão e ser xingado pelos familiares deles, ficar até tarde na casa de um deles e comer os quitutes da mãe ou vó, chupar chup-chup da melhor vendedora da vizinhança, jogar futebol na rua com dois chinelos de trave, dormir pela casa e a mãe te mandar tomar banho… tudo isso está cravado no meu cérebro como as melhores memórias de infância. E o filme trouxe tudo de volta de forma magistral, com carinho, simplicidade, ótimas atuações e uma super atenção aos detalhes.
O enredo do filme também é especial, por se tratar de um desenho tão icônico daquela época, o Caverna do Dragão. Eu adorava (quase) tudo sobre esse desenho, só me irritava com o unicórnio, que, vira e mexe, atrapalhava nossos heróis na missão de voltar para a casa. E não sei se você sabe, tudo aquilo que o filme discute é real. Caverna do Dragão nunca teve um último episódio.
E o brasileiro realmente foi obcecado pelo desenho. Tanto que até a ideia dos meninos – fazer com suas próprias mãos um episódio final de Caverna do Dragão, em 91 – foi realmente feita pelo pessoal do Jovem Nerd. Você pode ver o episódio aqui.

Outra coisa que ressoa muito comigo foi isso de imaginar uma história nova com personagens de desenho. Tenho uma memória em que fiz, numa viagem de férias, uma história em quadrinhos incrível junto com primos distantes sobre o universo de Mortal Kombat. Colorido e tudo mais. Com o sub-zero como herói, com participações do Raider, do Goro… Na minha cabeça ficou um material fantástico (o que certamente não foi o caso, pois era um desenhista medíocre, criança, com imaginação fértil de criança). Deve ter sido uma bomba. Ainda bem que não tivemos uma câmera pra filmar. Então se você sair do filme achando que foi um delírio crianças pensarem que podiam não apenas fazer o último episódio de um desenho, mas também mostrá-lo como o episódio final para uma gatinha, e que isso não tem base na realidade, saiba que eu acho até hoje que fiz o melhor quadrinho da história sobre Mortal Kombat. A gente era assim.

A Filmes de Plástico tem essa magia de trazer o Brasil de verdade para as telas, mas num formato mais “cinema de gênero”, um cinema “comercial”, que nos remete aos formatos estadunidenses de filmes. O Último Episódio me passa muito esse sentimento. E isso não é um demérito. Um dos motivos que faz o cinema brasileiro ser razoavelmente mal visto pelo próprio brasileiro, é ser um cinema que estuda o Brasil demais, que deseja sempre conversar sobre o país, de forma muito sensível e artística, de forma profunda, com longos planos, com tudo de mais experimental na arte cinematográfica. Coisa que está 100% correta. A arte é isso. É levantar problemas, situações, discutir, provocar, quebrar barreiras, ir além. Mas pode ser só diversão também, que por si só já é uma posição, enfim, tem muita complexidade aí pra discutir em um artigo mais longo sobre cinema e arte…
A questão é, eles conseguiram fazer um filme adolescente divertido, “comercial” (até onde pode ser), leve, que traz toda uma brasilidade real (a minha vida praticamente toda está ali, e certamente a de muitos outros brasileiros), sem o peso de ser um filme brasileiro de discutir problemas graves. Mesmo tendo muitos elementos ali, se você quiser puxar certas conversas complexas. A falta do pai, a depressão, as mães solteiras e as vós sozinhas criando filhos, as dificuldades do dia a dia brasileiro no início dos anos 90, a economia em frangalhos, a super inflação… Tem diversos temas interessantes de serem discutidos e apontados. Mas também é um filme sobre impressionar uma gatinha com o último episódio de Caverna do Dragão, pra você assistir com tranquilidade num domingo à tarde comendo a macarronada da vó.
E a gente precisa disso. É um grande serviço pra cultura cinematográfica do país esse tipo de filme existir. A gente precisa se ver nas telas em situações mais cômicas, mais leves, mais tranquilas, além de se ver também nas situações mais tristes, pesadas e intranquilas. É bom ter de tudo. E filmes assim podem ser boas portas de entrada para drogas mais pesadas (todas as outras jóias do cinema brasileiro).


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