Deve existir, provavelmente, uma dezena de filmes perfeitos. Filmes que não tem erros, que cada segundo é feito da melhor maneira possível, que cada quadro é essencial, que cada linha de diálogo tem exatamente a frase que deveria ser falada naquele momento, que tudo se encaixa de forma tão perfeita que parece ter sido feito sem esforço nenhum. E que, certamente, foi feito com um esforço descomunal, beirando a obsessão. O único filme assim que me vem à cabeça hoje é O Parasita, que talvez seja o melhor filme da década. E O Agente Secreto é mais um deles. O Agente Secreto é um filme perfeito.
Mas não foi fácil chegar nessa conclusão. Saindo do cinema pensei em se tratar apenas de um ótimo filme, bem feito, sem grandes problemas. Mas não pensei ter visto nada grandioso. Não estava conseguindo enxergar a perfeição. Foi refletindo sobre cada um de seus momentos que aos poucos foi me caindo a ficha, tal qual Vegeta em Dragon Ball ao olhar para Goku lutando. Eu também pensei, “o miserável é um gênio”.

Kleber Mendonça Filho conseguiu criar a história perfeita de ditadura que nunca existiu. Falando sobre todos os problemas da sociedade brasileira, mesmo sem tocar profundamente em cada um deles. Isso já é uma marca registrada do diretor, então não me surpreendi tanto. Mas parando pra pensar, ele conseguiu falar de corrupção policial, de perseguição política, da diversidade da população brasileira (e todas suas contradições), da construção da estrutura da sociedade brasileira ao longo dos anos, de tecnologia, pesquisa, patentes, faculdades, preconceito, cidade, Recife, Carnaval, e até de cinema. O miserável realmente é um gênio.
Acho que o que mais me impressiona é o quão natural tudo parece. Todos os personagens são tão bem construídos, tão diversos e interessantes, tão humanos, que é um absurdo essa história não ser real. E ele constrói as interações, as personalidades, as ações de cada um deles de tal maneira que eu precisava ficar me relembrando que o filme se passava no meio da ditadura. O Agente Secreto é a melhor representação da “normalidade” falsa da ditadura. Outros filmes tentam, até mesmo o ótimo Ainda Estou Aqui, mas nenhum deles passa essa “vibe” perfeita de que a vida está acontecendo normalmente, mas na verdade tudo está de pernas para o ar.

Se você parar pra pensar, O Agente Secreto praticamente não tem uma cena clichê de ditadura. Não tem um protesto, um interrogatório, uma tortura, uma situação de “o exército entra na casa de alguém, todo mundo sabe o que está acontecendo e ninguém fala nada e a pessoa é levada e nunca mais vista”. Não. Um dos únicos momentos assim é no início, quando dois policiais abordam Marcelo/Armando, mas não com vibes de ditadura, e sim pra extorquir uma pessoa aleatória, roubar cigarro. Isso, provavelmente, está acontecendo agora em algum lugar do Rio de Janeiro. Outro momento que pode ser visto como “básico” mas que ao mesmo tempo tem toda uma profundidade diferente é quando Marcelo/Armando está conversando com Elza, sendo gravado. Mas essa conversa é bem diferente do que se espera de um filme de ditadura. Os personagens são mais complexos, tem motivações mais diversas, não são aqueles arquétipos de heróis perfeitos que precisam ser protegidos a qualquer custo. Marcelo/Armando é só um cara.
Até a sequência de perseguição a Marcelo/Armando é pouco convencional, e na verdade, bem parecida com a vida real. Um representante do exército contrata dois matadores por um valor X para matar o rapaz, e os matadores contratam outro matador mais barato para fazer o serviço por X dividido por 10. O que é mais Brasil que isso? E é lógico que tudo dá errado, mas também dá certo. No fim Marcelo/Armando morre, numa morte não convencional também, não tem tiroteio, nós não vemos seu corpo ser cravejado de balas em câmera lenta, com alguém chorando. É apenas uma foto.

Outra coisa pouco convencional, mas muito real, muito brasileira, é o desinteresse ou pouco caso que o filho de Marcelo/Armando tem de toda a situação. Uma pesquisadora sabe mais sobre seu pai, tem mais empatia pela sua trajetória e morte, se empenha mais em saber a verdade, do que Fernando. O que é completamente normal também, bem real. A memória brasileira sobre a ditadura não é das melhores. Ainda mais de uma criança que praticamente não vivia com seu pai. Para ele, é só mais uma das inúmeras histórias de filho que cresce sem pai. Fernando não é um personagem ativo, não está lutando por justiça, não quer nem falar muito sobre o assunto. Ele só queria assistir o filme Tubarão.
O Agente Secreto é um filme super contemporâneo, mas que me lembra todas as melhores partes do cinema brasileiro. O hoje, misturado com o Cinema Novo, com as chanchadas, com a retomada, com Kleber Mendonça Filho. É todo o Brasil despejado ali, de forma incongruente, confusa, com todas as referências cinematográficas perfeitas, com todos os assuntos sendo tratados, mas ao mesmo tempo nada sendo falado, totalmente real mas totalmente não convencional. Perfeito.


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