Trabalhar Cansa (2011)

Fui ao Cine Santa Tereza aqui em BH pra acompanhar a mostra “Filmar o Trabalho” – e fica aqui a dica para os belorizontinos do grupo que o Cine Santa Tereza tem filme quase todo dia, 100% gratuito, numa salinha linda e charmosa – e me peguei re-assistindo o excelente Trabalhar Cansa (2011) de Juliana Rojas e Marco Dutra. 

O filme é um primor em mostrar diversas relações de trabalhos brasileiras, e um de seus muitos méritos é ser muito brasileiro mesmo, especificamente brasileiro. É quase que um estudo de camadas e camadas desse nosso cenário e suas ramificações sociais. E tudo isso num filme de terror! 

A história é basicamente uma mãe de família se aventurando no empreendedorismo abrindo um supermercado, lidando com os desafios intrínsecos ao modelo de trabalho e o pai dessa família lidando com a perda do emprego na meia idade e sua reinserção num mercado de trabalho diferente do que estava habituado.

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Isso desencadeia uma série de relações que provocam esse quase “estudo” sobre o trabalho. Na superfície, podemos ver os desafios do empreendedorismo, o tanto que Helena precisa se esforçar para abrir seu próprio negócio, o “terror” que passa com reformas, relações com empregados, clientes, com o dinheiro e como isso afeta sua família. Outra visão numa camada superficial também é sobre a situação do pai, Otávio, que é substituído por uma pessoa mais jovem (que ele ajudou a treinar na firma antiga) e agora se vê sem emprego e tendo que participar de dinâmicas, seminários, palestras, tendo que contratar serviços para ser empregado novamente e sendo forçado a competir com outra geração de concorrentes por vagas cada vez piores. 

Mas é descendo um pouco dessa camada superficial que o filme brilha. Porque as dinâmicas de Helena e Otávio em suas “lutas” desencadeiam muitas outras relações mais profundas que exemplificam muito o que é o Brasil. Por exemplo, para trabalhar fora de casa e se dedicar ao supermercado, Helena “precisa” contratar uma pessoa para cuidar da sua casa e da sua filha. E isso abre toda a conversa sobre o tema do “trabalho doméstico”.

Sabemos que o trabalho doméstico no Brasil é resquício da escravidão, com textos muito mais inteligentes que esse aqui te explicando tudo sobre, e ao expor, de forma bem detalhada, em tela, Juliana Rojas e Marco Dutra nos mostram o quão ridícula e absurda é esse dinâmica que normalizamos por anos, décadas, e ainda hoje é, no mínimo, tolerada. 

Helena contrata uma pessoa, por menos que um salário mínimo, para ficar o dia inteiro na sua casa, arrumar tudo, cozinhar as refeições, criar sua filha e dormir num micro quartinho, sendo mandada por todos, sem vida pessoal, sem momentos de descanso, quase que sem direito nenhum, enquanto sai de sua casa para cuidar de outro empreendimento, onde contrata pessoas com salário mínimo, direitos mínimos, que voltam para suas casas no fim do expediente, e, minimamente, vivem. Se apenas isso já não fosse um absurdo, o pai da família está sem emprego, em casa o tempo todo, e poderia arrumar a casa, fazer as refeições, criar sua própria filha, e tudo mais que fosse necessário. Inclusive eles estão sem dinheiro, precisam cortar gastos, e não passa pela cabeça de nenhum deles que “quase” um salário mínimo de uma pessoa extra em sua própria casa possa ser um gasto supérfluo. Chega a ser inacreditável, não fosse tão comum. Tem até uma bela cena que ilustra isso tudo, com o marido na casa sem jeito enquanto a empregada limpa a sala. Ele se oferece pra ajudar, levantando uma cadeira, mas ela já havia terminado.

“Estou ajudando”

Tem também as reclamações de Helena por não conseguir encontrar mais nada na sua própria casa – pois a empregada, quem realmente vive diariamente ali, arruma e utiliza tudo, reorganizou as coisas. A chegada da vó da família também é um momento importante, uma outra geração que normalizava ainda mais esse comportamento de subserviência dos empregados, que olha para Paula com desprezo e é ainda mais dura na cobrança sobre suas tarefas. 

Nessa nova sessão me atentei para alguns detalhes que não havia pegado na primeira vez que assisti ao longa (o que é sempre o caso, pois podemos focar em outros aspectos já tendo o contexto da história). Logo no início da contratação de Paula, a filha da família tem uma apresentação de escola. E nessa apresentação as crianças estão falando sobre abolição da escravidão e para interpretar isso, elas fazem o uso de Blackface. Não tem crianças negras no colégio da filha da família, que mostra muito bem toda a desigualdade provocada pela sociedade brasileira. Os brancos são cuidados pelos negros, que não tem nem seus direitos mínimos respeitados, muito menos frequentam os mesmos lugares. Ajudam a criar vidas das quais não tem o menor acesso. 

E para completar isso tudo, o filme ainda tem um aspecto de terror, que permeia quase todos os momentos no mercado. Algo de errado sempre está acontecendo ali. No início, quando Helena ainda estava limpando o local pela primeira vez, um “invasor” aparece. O vizinho do lado. É durante a limpeza encontram muitas baratas e um quartinho estranho, com itens esquisitos. Depois, o ralo começa a feder muito e precisam tirar de lá um bicho estranho. E toda vez que Helena vai embora, um cachorro está na porta do mercado latindo. Um momento icônico é o boneco do Papai Noel que dança toda vez que alguém passa perto, por um sensor de movimento, se ligar sozinho durante a noite. Tem algo de ruim ali. Até que entra em cena a situação da parede. Helena descobre uma infiltração ali, e tenta resolver com uma pintura, colocando itens do mercado na frente para tampar o problema.

O mercado parece funcionar como uma representação física do que está acontecendo dentro da cabeça de Helena. Suas frustrações, o cansaço, medo, seus problemas vão aumentando, se embolando, tomando conta da sua vida, bloqueando qualquer tipo de paz que ela poderia ter. Inclusive, isso é demonstrado perfeitamente no Carnaval. A família quer viajar, ir para a casa de campo (que, aliás, é outra ótima chamada. Algumas pessoas não tem apenas uma casa, e sim a casa de viver e outra para passar férias, toda empoeirada, sem ninguém na maioria do tempo. Um completo contrassenso numa sociedade com tanta desigualdade, tantas pessoas sem um teto), e Helena decide ignorar tudo isso e abrir o mercado, afinal, ela precisa vender, fazer seu empreendimento acontecer. E tudo dá errado, mais uma vez. 

Assim acontece o clímax do filme. Não existe demanda para o carnaval, Helena acaba sozinha, sem família, sem funcionários, sem clientes, no mercado, e a parede volta a apresentar problemas. Algo está ali. Mas agora Helena resolve ser profunda, quer chegar à raiz do problema, ela vai quebrar finalmente a parede (tanto física quanto emocional) e resolver seus problemas, acabar com o que a aflige.

E ela acha uma carcaça de uma pessoa, meio animal, meio humano, que parecia viver ali, amarrado, acorrentado. Até hoje não entendo o que isso significa pois não fui atrás de explicações, mas vejo como um símbolo da desumanização das pessoas através de uma sociedade construída para viver para trabalhar e trabalhar para viver. Sempre servindo outros. Uma boa cena que corrobora um pouco essa ideia é a do pai da família numa palestra ridícula sobre carreira. Essas palestras são famosas na vida real pela vergonha alheia que causam e aparecem de vez em quando em vídeos na Internet. Nelas (e na palestra do filme) o palestrante pede para os homens (sempre homens) imitarem bichos, gritarem, voltarem para seus “estados primitivos”, virando animais. Aparentemente, é isso que as pessoas precisam para serem os melhores trabalhadores possíveis.

Links espertos

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