Estava de férias em Paraty e descobri, no Sesc de lá, que o filme Gabriela (1983) de Bruno Barreto, foi filmado naquelas belíssimas ruas. Então é claro que fui assistir ao filme (tem de graça aqui), mesmo cometendo o crime de ainda não ter lido o livro Gabriela, Cravo e Canela (1958), de Jorge Amado. Inclusive, quando eu finalmente ler o livro, irei melhorar esse texto ou fazer outro com as comparações entre as duas obras. Inclusive 2, vem aí um texto (ou já veio se você está num futuro distante em que eu sou organizado e produtivo) sobre obras de literatura brasileira que foram adaptadas para as famosas ~telonas~. Então tem muito conteúdo sobre Gabriela por vir. Fique ligadinho.
Enfim, voltando ao filme.
Gabriela é… complexo. Lindo, divertido, com cenas belíssimas, atuações divinas, música fantástica, mas, ao mesmo tempo, raso e corrido.
Só de você ter no elenco Sonia Braga (interpretando Gabriela) e Marcello Mastroianni (um dos mais importantes atores do cinema italiano, que atuou em filmes de Fellini, De Sica, Visconti, Antonioni – interpretando Nacib), uma trilha sonora feita por Tom Jobim e ser baseado numa obra de Jorge Amado, já dá pra dizer que seu filme parte de uma plataforma riquíssima pra arrasar quarteirões. E Bruno Barreto já havia adaptado muito bem outra obra de Jorge Amado, Dona Flor e Seus Dois Maridos (filme de 1976 e livro de 1966), que foi realmente um “arrasa-quarteirões” como dizem os estadunidenses (blockbuster), levando mais de 10 milhões de brasileiros ao cinema – a quinta maior bilheteria da história do nosso cinema, sendo superada apenas por Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro (2010) e Minha Minha Mãe É uma Peça 3 (2019) como bilheterias reais e dois filmes da Record – Nada a Perder (2018) e Os Dez Mandamentos – O Filme (2016) que apresentavam relatos de salas vazias mesmo com todos os ingressos comprados. Uma curiosidade. Eu mesmo presenciei algo do tipo. Estava no Shopping Contagem, na hora do almoço, e, passando pelo cinema, fui abordado por um jovem dizendo que comprou ingresso para um filme e não poderia ir, perguntando se eu não gostaria de ir ver o filme. Ele me mostrou o ingresso e estava lá escrito “Nada a Perder”. Enfim………

Voltando pra Gabriela.
O sucesso de bilheteria não se repetiu. Talvez pelo público já ter visto toda uma novela de sucesso com a mesma história em 1975, talvez por terem uma overdose de Sônia Braga (o que julgo ser impossível), talvez por termos entrado em outra era do cinema, com maior invasão do cinema estadunidense – já estávamos no meio dos anos 80… tem uma análise boa aí a ser feita sobre – o que não é o foco desse texto no momento.

O foco é o filme, e falando sobre o livro (risos) e conhecendo Jorge Amado, dá pra ver que muita coisa ficou de fora ali. Toda a trama política ficou relegada a algumas poucas falas e imagens, personagens que julgo serem importantes para a trama do livro aparecem em uma ou duas cenas apenas e suas histórias são largadas para o foco da história ser Gabriela e Nacib. É isso que faz tudo parecer corrido, e, mesmo parecendo, não estou fazendo uma grande crítica. Ok, o filme podia ser maior, mais bem construído, com pausas, tempo maior para alguns outros assuntos, outros personagens, talvez fazer mais umas diárias em Paraty e esticar mais meia horinha? foda que tudo lá é caro… Mas sinto que nada disso é um problema real. Se a gente quer mais, tem o livro, a novela, e agora outra novela. Acho que o que Bruno Barreto estava fazendo na época era uma homenagem a uma grande história, que precisava ter seu lugar no cinema. E a relação entre Gabriela e Nacib no filme é fantástica.
A atuação de Sônia Braga é fantástica. Cadê o Oscar brasileiro em 1983? Duvido que essa Shirley MacLean mereceu mais. É a Anora nos roubando tudo de novo.
Sônia Braga parece ter nascido para esse papel. É impressionante a aura que ela passa de Gabriela. Ela incorpora essa mulher forte, sensual, divertida, inocente, e Bruno Barreto nos mostra isso tudo de forma fantástica, com uma cena perfeita (que tentei tentei tentei baixar pra jogar aqui mas não consegui – assista aqui entre os minutos 27 e 29) construindo a personagem em casa, tomando banho, se arrumando, fazendo almoço, lavando roupa e descansando. Lindo.

A construção de Nacib também é excelente. Ele passa toda a energia de bondoso em suas relações com empregados e Gabriela, é um super fofoqueiro e bobo, fácil de cair nos encantos de uma linda mulher.

E acompanhar esse dia a dia até Nacib se apaixonar por Gabriela é muito bom. Acompanhar Nacib com ciúmes de Gabriela é muito bom também. Acho que o filme se perde um pouco para chegar nos finalmentes. A trama política, com o assassinato, não é bem feita, não vai pra lugar nenhum. A traição de Gabriela parece abrupta, sem grandes motivos. Ele tentou construir uma desconexão entre Gabriela e Nacib, ele querendo fazer passeios “de adulto” e ela “de criança”, ele trabalhando até tarde sempre, mas tudo pareceu, novamente, corrido. Mas o final é incrível e traz de volta tudo que eu mais gostei em todo o filme, inclusive esse quadro fantástico, que se repete diversas vezes.

Gabriela nos oferece um lindo romance, belas cenas, atuações fantásticas, música maravilhosa, mas corre um pouquinho e deixa de lado grandes tramas que vamos ter que ler palavras em folhas para saber. É a vida. Gabrieee-la.


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